[[legacy_image_312255]] “Novela o próprio nome já define: é um novelo que vai se desenrolando aos poucos”. Na síntese, a simplicidade de Janete Clair sobre um fenômeno. No trabalho, a complexidade de se lidar magistralmente com as emoções nas suas histórias que paravam o Brasil. Há exatos 40 anos, em 16 de novembro de 1983, a novelista ganhou definitivamente a condição de eterna, aos 58 anos, vítima de um câncer no intestino. Nascida Janete Emmer em 25 de abril de 1925, na cidade de Conquista, em Minas Gerais, ela foi locutora, radioatriz, escreveu tramas para o rádio e chegou à TV na década de 1960, consagrando-se na Rede Globo a partir de 1967, com estrondosos sucessos como Irmãos Coragem (1970-1971), Selva de Pedra (1972-1973), Pecado Capital (1975-1976), O Astro (1977-1978) e Pai Herói (1979). O Clair vem da música Clair de Lune, sua preferida, de Claude Debussy. Foi casada por 33 anos com o dramaturgo Dias Gomes, outro autor de mão cheia e cheio de sucessos no currículo, como O Bem-Amado (1973) e Roque Santeiro (1985). João, Jerônimo e Duda, os Irmãos Coragem, Cristiano Vilhena e Simone Marques, de Selva de Pedra, Carlão, Lucinha e Salviano Lisboa, de Pecado Capital, Herculano Quintanilha, de O Astro, André Cajarana, de Pai Herói...Todos personagens de Janete, mas absolutamente reais nos seus dramas e alegrias para o público que acompanhava todas as noites as tramas da Maga das 8, a Nossa Senhora das 8, a Usineira de Sonhos, a Senhora de Nossos Sonhos... Muitos epítetos, uma só consagração. Na força das emoções, Janete escreveu até os últimos momentos. Quando não podia mais datilografar, fazia a mão os capítulos da novela Eu Prometo, na Rede Globo, concluída por Glória Perez, considerada uma de suas principais discípulas, e por Dias Gomes. Deixou uma obra indispensável e três filhos (Alfredo Dias Gomes, Denise Emmer e Guilherme Dias Gomes) que, como seu sobrenome artístico, tem relação direta com a música – seriam quatro, mas Marcos morreu ainda criança. A neta Renata Dias Gomes, filha de Alfredo, seguiu diretamente seus passos como autora, roteirista e dramaturga. [[legacy_image_312256]] A Tribuna conversou com o baterista e compositor Alfredo e a escritora (com 24 livros publicados entre poesia, romance e conto), cantora e violoncelista Denise – Guilherme também é músico. Eles homenagearam a mãe em textos que retratam as experiências e o legado pessoal e emocional deixados por Janete, e que carregam ao longo da vida, um novelo que se desenrola aos poucos. Alfredo Dias GomesCom minha mãe eu aprendi a ter perseverança para conquistar os meus sonhos e objetivos. Ela tinha isso muito forte. Ela foi uma pessoa que sonhou quando criança que ia fazer sucesso e conquistou isso. O que ela queria, ela conseguia. Apesar de ter seguido a carreira de músico, assim como ela, eu vivo para criar. Ela acordava cedo, ia pro escritório dela na nossa casa, escrever os capítulos das novelas. Eu acordo, não tão cedo (risos), e vou pro meu estúdio, na minha casa, compor e produzir discos. E, agora, depois dos 60 anos, comecei a escrever também. É muito bom sentir um pouquinho da sensação dela quando escrevia. Minha mãe vivia pra escrever novelas, cuidar da casa e dos filhos. Ela era muito atenciosa com as pessoas, tratava todos muito bem, ajudava todo mundo. Tenho muitas saudades dela, acho que não tem um dia que não penso na minha mãe. Faz 40 anos que ela se foi, mas ela está presente em mim em tudo que eu faço, como uma animação sobre a trajetória dela, chamada Clarão do Luar (Clair de Lune) e que está no ar no YouTube a partir desta quinta (16) neste link. Denise EmmerMinha mãe deixou-me o legado intelectual de uma criadora sem amarras. Sua imaginação inigualável fazia de suas histórias longas viagens, que transportavam aos que as assistiam a situações envolventes e lugares mágicos. Por ser mágico e livre, conquistou o grande público sem fazer concessões à lógica ou ao racional. Ressalto também o seu pioneirismo em retirar a mulher do papel subalterno, coadjuvante, e colocá-la no centro da trama como a protagonista que trabalha e possui voz própria. Porém, como filha, levo sempre o seu amor que dedicou a nós, seus filhos, de forma incondicional. Levo a sua palavra amiga e o seu afeto maternal.