[[legacy_image_108773]] Há cerca de 100 anos, era proibida a presença de mulheres na Bolsa do Café, localizada no coração da Rua XV de Novembro, no Centro Histórico de Santos. Mas, há 23 anos, o tradicional edifício é ocupado pelo Museu do Café e, agora, as mulheres, além de liderarem o local, ainda são maioria no quadro de colaboradores. Essa força feminina no Museu representa um resgate histórico da presença da mulher na história do café. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! “Sempre que estou no meio do Salão do Pregão, dando uma entrevista ou fazendo a abertura de algum evento, penso na importância desse momento, como mulher, estando no espaço mais nobre do edifício em que as mulheres não podiam entrar”, declara a atual diretora executiva do Museu do Café, Alessandra Almeida. Além dela, nos cargos de coordenadora técnica e de gerente de comunicação institucional estão Marcela Rezek e Caroline Nobrega, respectivamente. As três ocupam os cargos há 4 anos. Outras funções-chave no Museu também são exercidas por mulheres, como as de museóloga, arquivista, documentalista e bibliotecária e gestora do setor educativo. Além disso, dentre os atuais 11 educadores do Museu do Café, 10 são mulheres. “Essa presença feminina tão potente, que desenvolve um trabalho muito importante de preservação e disseminação da história do café no Brasil e no mundo, é um passo enorme para nós, mulheres, e para toda a sociedade”, acredita Alessandra. Dar VozA mulher sempre foi muito importante para o setor cafeeiro, mas foi tornada invisível, avalia Alessandra. Apesar do estigma de que as mulheres só poderiam fazer “trabalhos fáceis”, ela ressalta a tarefa de separar dos grãos, que era do encargo das mulheres e que impactava diretamente no valor de mercado do café. Essas mulheres foram reconhecidas como “pianistas de armazém” pelo trabalho que requeria muito foco e destreza nos dedos. Apesar do impacto do trabalho, as condições eram precárias. A exposição que conta a história dessas mulheres ficou disponível no Museu até 2019, mas é possível conferi-la de forma virtual pelo Google Arts & Culture neste link. Atualmente, está em cartaz a exposição temporária O Feminino no Café, 1870-1930, que a partir de vestimentas e fotografias, resgata as mulheres escravizadas, colonas, operárias, fazendeiras, patronessas e artistas, em relação ao universo do ‘ouro negro’, como era conhecido o café. “Além da importância econômica, o café também tem uma grande influencia social e cultural”. Ainda dando voz à temática, na última semana foi transmitido o webinário O Feminino no Café Hoje, em uma parceria entre o Museu do Café, a Aliança Internacional das Mulheres do Café (IWCA Brasil) e a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). As transmissões estão disponíveis no Youtube. xxxPara a diretora do Museu do Café, mostrar a presença das mulheres em um setor tão identificado com o masculino é uma prioridade na instituição, em busca da igualdade de gênero. [[legacy_image_108774]] BaristaJulia Cristy, de 23 anos, com seus cabelos coloridos, e tatuagens nos braços é a primeira barista mulher a trabalhar no Rei do Café, em 109 anos de funcionamento da tradicional casa de torrefação e moagem. “Ser uma barista mulher é a quebra de uma barreira pesada que determina o que a mulher consegue ou não fazer”, ressalta. Ao começar no Rei do Café ela diz ter ouvido comentários como “finalmente colocaram uma mulher aqui”, reconhecimento que a enche de orgulho. Apesar das mulheres estarem ocupando mais espaços, o machismo ainda existe no ambiente do café. Como barista ela explica que, no geral, ao estar atrás do balcão é comum receber “cantadas” e “propostas de emprego” por sua aparência e simpatia nos atendimentos, “o que é bem desagradável”. [[legacy_image_108775]] Em várias frentes, Moni combate o machismo do setorCafeóloga e autodenominada ativista do café, a carioca Moni Abreu acompanha de perto as múltiplas realidades do espaço da mulher no café há quase 10 anos.Ao trabalhar com pequenos produtores, auxiliando a melhorar a qualidade dos grãos e “levar o café da roça para a cidade”, ela analisa que, lá, as mulheres ficam à sombra dos maridos, sendo silenciadas. “Acontece da mulher trabalhar em oito pontas para que a safra saia. Mas, no concurso, quando o grão é vencedor, o nome que está lá é apenas o do homem”. Apesar disso, ela conta que a maioria dos produtores que atendeu entrou no ramo do café especial (uma classificação melhor avaliada) por causa da mulher da família. O café especial é vislumbrado como algo diferente, mais humano, e que pode melhorar o padrão de vida da família, saindo da pressão do commodity. “Em geral, são as mulheres que têm essa visão aguçada e sensível”. [[legacy_image_108776]] InvisíveisPara Moni, a estrutura de tornar a mulher no café invisível também ocorre no meio urbano, mas de forma mais velada. Também trabalhando com torra de grãos, ela diz já ter passado por “situações cabreiras” de machismo em concursos da área. Ao se questionar se isso só acontecia com ela e o porquê de a maioria dos participantes serem sempre homens, Moni criou em 2018 a rede Elas Torram, reunindo mulheres em um “ambiente seguro” para se exporem e se ajudarem.Atualmente, em um grupo fechado de WhatsApp elas já são 220 mulheres. No Instagram, @elastorram, o perfil possui mais de 2 mil seguidores. “Somos muitas e estamos cada vez mais confiando em nós”. Resgate históricoMoni Abreu está escrevendo um livro sobre a origem do café. “Nos livros, conta-se uma lenda com muitos homens pastores, monges e sargentos. Mas, na verdade, a origem é toda feminina”. Ela explica que a origem do café está ligada às mulheres coletoras do grão na África. Elas faziam cerimônias do café, colhendo, torrando, moendo e preparando. “É algo cultural, arraigado, ancestral. Podemos falar que elas foram as primeiras ‘baristas”. Resgatar essa história, para Moni, gera uma grande sensação de poder às mulheres.