[[legacy_image_312312]] Na meditação que a execução de Caryl Chessman nos impõe, através de sua tormentosa agonia, em inglês, mais do que em português a palavra quer dizer luta, nesta meditação vamos interromper a promessa duma lista de livros imprescindíveis... Lemos, hoje, na face dessa mitológica e múltipla humanidade monstruosamente contraditória, que são os Estados Unidos da América do Norte, mais uma vez, outra página, em que a “intrusão da tragédia grega se faz no romance policial”, como André Malraux precisamente define o grande romance de Faulkner, Santuário. De fato, o crime do ‘bandido da luz vermelha’, os seus crimes, subitamente adquiriram a força dum crescendo, dum crescendo sem ‘adágios’, com alguns dolorosos e brutais ‘stacatos’, mais continuando em crescendo, a tal ponto que na manhã de 2 de maio de 1960, quem quer que lesse um jornal no mundo, sabia que um homem ia morrer somente porque havia ‘pena de morte’, e que a lei inexorável devia ser aplicada, não obstante ele continuasse teimando na sua inocência e tivesse demonstrado mais de dois mil erros ao longo da feitura de seu processo, erros que fizeram com que a justiça recolhesse as suas certezas, e até a última apelação fosse recusada pela diferença de um voto, sete a votar, quatro contra, três a favor... Então a essa cela despojada de San Quentin onde um homem esperava – não na história dum sentenciado à morte tamanha margem para desesperar da vida! – a essa cela onde pulsava um coração que queria viver e um cérebro lúcido reclamava a revisão do processo, a consciência do mundo inteiro comparecia às 10 horas da manhã, e dizia adeus a um condenado. Não se trata de sentimentalismo, não se trata de julgar a justiça norte-americana – tão frágil quanto qualquer esforço humano para atingir a verdade e para ser justo, pois a desproporção entre o crime e a pena transbordara na técnica da tortura desses adiamentos de última hora – não se trata de uma condenação à estupidez, à falta de visão, mas da compreensão que precisamos ter para que a barbarização não nos afete, em nossas preocupações. Chessman era um criminoso comum, se não o ‘bandido da luz vermelha’, certamente, culpado de outros crimes. Mas os Estados Unidos não vivem, impunemente, a sua trágica situação de país jugulado por um puritanismo recalcado, complexado, neurótico, que contribui, ponderavelmente para que haja uma percentagem tremenda de psicoses; não vivem impunemente o seu drama de uma civilização sem raízes;o seu drama primário e nazista da segregação racial; o seu medo do presente e do futuro que faz com que seja um pesadelo a bomba H quando só os Estados Unidos empregaram, com toda sua responsabilidade, sobre Hiroshima e Nagasaki, a bomba atômica que pôs fim à Segunda Guerra Mundial... Quanto aos dramas do sexo desde Theodor Dreiser de Uma Tragédia Americana aos Tennessee Williams e Arthur Miller de Um Bonde Chamado Desejo e A Rosa Tatuada ou O Panorama Visto da Ponte, até Faulkner e Henry Miller com toda a sua literatura – espelham, refletem, procuram purgar os pecados e a sobrecarga afetiva terrível que pesa sobre um povo todo, que chega a se servir do linchamento quando surge a menor suspeita duma infração, e até um assobio inocente de criança, de um menino ‘colored’ para uma mulher branca... Tudo isto é que levou a caboa sádica tragédia de Chessman, e devemos compreender. Compreender para não aderir, para não aplaudir, para não precisar exercer a piedade sem a base de um raciocínio mais justificado. Um manifestocontra a pena de morte emerge do último sorriso desse condenado ao entrar para a câmara de gás, tranquilamente, como que santificado por um longo martírio, pois da altura desse calvário ele não precisava de nenhuma batina para ouvir sua confissãoe para absolvê-lo; que poderiam ouvir os homens daquele que partia para o esquecimento? Que podiam ouvir os deuses que comparecem na cabeceira da cama dos que morrem em hipocrisia e apesar de todos os socorros médicos e sob a bênção de todos os sacramentos? O condenado de San Quentin subiu até a sua cadeira de mártir – o mundo inteiro olhava para ele nessa manhã de 2 de maio. Condenai a pena de morte.