Uma das principais vozes da literatura atual, Adriana Lisboa revisita seu terceiro livro, de 2004 (Divulgação) Antigo Colégio Santa Úrsula, Rio de Janeiro, 1979. Certo dia, a professora pediu aos alunos que escrevessem uma poesia. Aos nove anos, a menina Adriana achou a atividade interessante. “Tanto que tínhamos de escrever apenas um (poema), mas acabei escrevendo vários”. A menina cresceu. Quase 50 anos e 23 livros depois, entre romances, contos, infantis, ensaios e poemas, Adriana Lisboa revisita o passado no ‘recém-relançado’ Caligrafias. Não o passado da menina descobrindo a Literatura, mas o da escritora formada: originalmente de 2004, Caligrafias é o quarto livro de Adriana. A obra é a mesma de há 22 anos, mas também é outra: como se o tempo se desenrolasse em espiral, nos devolve sempre ao mesmo ponto, mas em patamar diverso. “De lá para cá, muita coisa mudou. As nossas sensibilidades mudaram, como disse o meu parceiro nesse livro, o Bonfanti (Gianguido, ilustrador tanto em 2004, quanto agora). Alguns textos foram ligeiramente revisados por mim, alguns poucos eu excluí, já não eram recuperáveis, com as exigências estéticas. E também houve a inclusão de alguns novos textos, escritos ao longo dos anos”, explica Adriana. O que permanece é o espírito dessas pequenas narrativas, tão pequenas, que às vezes são belos poemas em prosa, instantes da vida lá fora que ecoaram em seu íntimo, e Adriana congelou na palavra. “Os textos surgiram de maneira informal. Exercícios despretensiosos, sem intenção de se tornar textos mais longos, sem a intenção sequer de publicar”, recorda. “Eram aquelas coisas rabiscadas no embalo de uma ideia, de uma inspiração, de uma necessidade de elaborar algo em torno de uma experiência, mas que não cabia no formato do romance”. Daí o nome Caligrafias: a escrita pura, à mão, e do caderno de caligrafia, do aprendizado da arte, da leitura do mundo, do fazer da vida. Mas também remete à delicadeza da caligrafia japonesa, com a qual indiretamente teve relação. “Minha pesquisa de doutorado (em Literatura) foi sobre Bashô (Matsuo, poeta, 1644-1694), e a poesia clássica japonesa. Embora não estudasse, a gente convivia com a caligrafia na poesia japonesa, que deve à chinesa”. (Reprodução) Tradução Escritora, mas também tradutora. Dois ofícios próximos, porém distantes. Como Adriana diz, a “escritora não se mete muito na vida da tradutora”. Nem poderia: o autor é sagrado; ao tradutor cabe transpor não só as palavras, mas também as intenções, de um idioma a outro. “O fato de ser escritora me treinou ao longo dos anos a ter uma atenção muito minuciosa às palavras. Isso ajuda muito no momento de traduzir, mas não para me impor”. Por suas mãos, já ‘falam’ o português do Brasil Cormac McCarthy, Margaret Atwood, Emily Brontë e Robert Louis Stevenson, entre outros. Mas um dos maiores desafios também foi um dos mais recentes: a obra Vidro, Ironia e Deus, da canadense Anne Carson. “Ela tem um léxico até simples, para uma criação de uma complexidade e elaboração como poucas. Ela mistura poesia com ensaio, reflexões... escreve oratórios, óperas... ela esfumaça as barreiras entre os gêneros literários”. Música Escritora, tradutora e... música. Uma faceta que nasceu e cresceu na adolescência, mas que vinha de berço, no Rio de Janeiro natal: o pai cantava bem, a mãe tocava violão. A casa vivia cheia, em serestas e cantorias. “Comecei a estudar e acabou que foi o primeiro trabalho remunerado que tive na vida”. E foi em Paris. Aos 18 anos, aventurou-se na capital francesa e ganhava a vida cantando MPB na noite. Ao voltar para o Brasil, após se formar em música, em flauta transversal, mergulhou de cabeça nesse mundo, principalmente como professora. “A música começou a ocupar demais na vida”, relembra. “Não tinha tempo de ler e escrever o quanto gostaria. Foi quando decidi escrever o primeiro romance”. Adriana tinha 29 anos quando Os Fios da Memória foi lançado, em 1999. Estava selado o seu destino. Hoje, morando nos Estados Unidos, coroada por vários prêmios literários, incluindo o José Saramago, em 2003, e publicada em vários países, ela é uma das principais vozes da Literatura brasileira. Serviço: Caligrafias (Maralto Edições), 104 páginas, R\$ 65,90, em www.maralto.com.br.