[[legacy_image_311204]] O Censo do IBGE, divulgado recentemente, revelou que Santos é a cidade com o maior percentual de mulheres do Brasil: 228.881 moradoras, 54,6% da população. Esta representatividade não é graúda na política. Entre 21 vereadores, há apenas duas mulheres, entre elas Telma de Souza, a única prefeita na história santista (1989-1992). Por que não ocupamos mais cargos para, justamente, criarmos políticas públicas que defendam a maioria da população local, nós mesmas? Precisamos de iniciativas contra o feminicídio, a misoginia. Desejamos ter as mesmas oportunidades de trabalho que os homens. Estamos esgotadas e lutamos para que nosso trabalho dentro de casa, no cuidado com a família, seja reconhecido. Não parece no mínimo estranho que sejamos tão pouco representadas na esfera política? É bom lembrar que Santos gerou (e gera) grandes mulheres. Nas artes, entre os destaques, a atriz Lolita Rodrigues, falecida recentemente, a também a atriz e militante política Bete Mendes, e a cantora Tulipa Ruiz. Nos esportes, Karen Jonz, a primeira skatista brasileira a se tornar campeã mundial do vertical feminino. Ah! No mundo digital, é de uma santista, Regina Bittar, a voz do oráculo mais famoso do universo: o Google. Mas e aquelas que não ganharam os palcos, nem tão pouco notoriedade, mas fazem muito pela cidade que nasceram? No anonimato, permanecem milhares de mulheres extraordinárias que todos os dias mostram a força deste universo feminino enquanto caminham por nossas ruas, mas são invisibilizadas, ninguém as percebe, poucos sabem o que fazem por Santos. Não conhecem o valor que a mulher santista tem. As histórias estão em cada canto, basta avistar ao redor. Uma delas é a de Beth Rovai que há quase 50 anos desenvolve voluntariado para crianças e mães em vulnerabilidade social. Lidera um abrigo e uma creche noturna, a Casa Vó Benedita. O primeiro é lar temporário até que a família tenha condições de acolher novamente a criança. O segundo cuida dos pequenos para que as mamães possam estudar ou trabalhar a noite e ter mais condições de criar seus filhos. Um trabalho voluntário que já assistiu mais de 2 mil crianças e que ajuda muitas mulheres que precisam de apoio para conseguirem ser mães. Beth é aposentada, tem três filhos e cuida do pai acamado. Nunca parou o voluntariado, por nada. Vive de auxílio do município e do Estado, que não cobrem as despesas, por isso se empenha por apoio financeiro. Como não escolher a Beth para representar tantas outras mulheres guerreiras que fazem a diferença em uma cidade com mais de 50% da população feminina? Fabi Mesquita também é uma representante dessa presença que não deve passar em branco. Após atuar por dez anos em Santos com educação ambiental, reciclagem e protagonismo juvenil, partiu para o mundo. Primeiro para Indonésia onde realizou trabalho humanitário no pós-tsunami. Seguiu para seis países, entre eles Filipinas e Vietnã, envolvendo adolescentes e jovens em ativismo e voluntariado junto a grupos identitários. Depois, migrou para a Suíça até chegar à Myanmar, de onde saiu debaixo de uma guerra civil, após participar de grupos de ajuda humanitária. De volta a Santos, e com toda essa bagagem, arregaçou as mangas e se tornou membro do Conselho de Coordenação da OSC Concidadania, localizado na antiga Estação Sorocabana, onde atua na retomada de projetos importantes como a Festa do Livro e a Semana Célio Nori. Também é conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Fabi não para e transcende suas raízes santistas aonde quer que vá, por mais que finque seu destino por aqui. Ainda bem. Porque em Santos não tem “Garota de Ipanema”, que só desfila na praia e vê o tempo passar. Aqui, nossas garotas constroem o próprio tempo. Você ainda duvida da força desta maioria?