Os Rolling Stones aparecem rejuvenescidos por inteligência artificial no clipe da faixa "In The Stars", divulgado no Youtube (Reprodução/Youtube) Outro dia vi o novo vídeo dos Rolling Stones. Mick Jagger surge com o rosto de outro tempo. Keith Richards segura a guitarra como quem segura um documento. Ronnie Wood caminha entre imagens que trocam as marcas da idade por uma pele de arquivo. A inteligência artificial entra no palco para dizer que o tempo pode ser editado por alguns minutos, mas não pode ser vencido. No fim da música, fica a sensação de estrada. Não aquela de hotéis, discos e turnês. Outra. A que leva cada pessoa para perto daquilo que construiu. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Enquanto a banda toca, músicos de lugares distintos aparecem no vídeo. Gente que nasceu depois dos primeiros discos dos Stones. Gente que talvez tenha aprendido um acorde ouvindo “Gimme Shelter” no rádio do pai ou num fone de ouvido dentro do ônibus. A banda segue na frente, mas já não anda sozinha. Carrega consigo os rastros que deixou pelo caminho. Existe algo de passagem de bastão naquela sequência. Como se o rock, por alguns minutos, confessasse que também envelhece. Fiquei olhando aquilo e passei a mão no cabelo. Os fios brancos já ocupam espaço que antes era território de outras cores. Não chegaram de uma vez. Vieram aos poucos, sem anúncio. Um dia estavam perto da costeleta. Depois tomaram conta do espelho da manhã. Hoje aparecem até nas sobrancelhas. No começo tentei contar. Depois desisti. Há coisas que não precisam de cálculo. Quando eu era menino, os integrantes dos Rolling Stones já pareciam velhos para muita gente. Diziam que a banda estava perto do fim nos anos 70, nos anos 80, nos anos 90. Agora estamos em outra década e eles seguem ali, como postes na estrada. Talvez por isso o vídeo provoque tanto. Pela primeira vez, percebi que não tentavam esconder a passagem dos anos. A tecnologia rejuvenesce os rostos, mas a música fala de permanência. Não existe truque capaz de apagar a soma dos dias. Mario Quintana escreveu: “Envelhecer é um privilégio”. E talvez seja isso mesmo. Nem todos conseguem assistir ao próprio tempo passar. Nem todos conseguem guardar discos, fotografias, cartas, vozes e silêncios dentro do mesmo corpo. Existe uma espécie de coleção nos cabelos brancos. Cada fio parece guardar um nome, uma perda, um nascimento, uma conversa na cozinha, uma despedida na porta do aeroporto, uma conta paga no susto, um abraço depois do hospital. Os Stones entenderam isso antes de muita gente. Não ficaram parados dentro da própria juventude. Seguiram em frente. Trocaram integrantes, suportaram mortes, vícios, brigas e ainda assim permaneceram no palco. Talvez porque tenham percebido cedo que legado não é estátua. Legado é continuidade. Hoje olho meus cabelos brancos sem vontade de disputa. Eles não representam derrota. Representam presença. São testemunhas de que houve travessia. Quando meu pai morreu, encontrei uma fotografia dele aos quarenta anos. Pela primeira vez percebi que eu estava parecido com ele. Não senti medo. Senti ligação. Como se o tempo dissesse que ninguém caminha sozinho. No fim do vídeo, os Rolling Stones continuam tocando enquanto outros músicos ocupam a cena. Ninguém abandona o palco. Ninguém toma o lugar de ninguém. A música apenas segue. Talvez a vida funcione desse modo. Entramos na canção em algum momento, aprendemos parte da melodia, dividimos o refrão com algumas pessoas e depois deixamos que outros cantem conosco.