[[legacy_image_276939]] Finais de semestres são especiais na minha vida de professora. Não só porque a correria diminui – e põe correria nisso. Mas por serem o momento de lembrar que esse é um dos meus principais papéis no mundo. Dos que me fazem mais feliz, apesar dos desafios infinitos. E me parece que, com a pandemia, surgiram desafios cada vez mais emocionais. Com estudantes, docentes e comunidade acadêmica fragilizados, como reflexo de um contexto em que todas as pessoas estão mais ansiosas, angustiadas, intolerantes e amedrontadas. O que, muitas vezes, é expressado de formas agressivas. Dar aulas acaba sendo sobre preparar para o mercado de trabalho, passar conteúdo, analisar o que nos cerca, mas, principalmente, sobre ajudar moças e rapazes (no meu caso, são universitários) a lidarem com um turbilhão de sentimentos que, por vezes, mal sabem identificar. Que acabam interferindo no desempenho educacional e em relações interpessoais. É, aliás, um dos motivos que me fizeram voltar à terapia: até onde posso e devo ir para acolhê-los, mostrar que a jornada é difícil, mas cheia de alegrias, mesmo quando ainda não é possível enxergar isso? Me pego, muitas vezes, nessa reflexão ao longo do semestre. Ao fim de cada período, porém, parte dos estudantes me ajuda com a resposta. É quando surgem bilhetinhos, e-mails, directs no Insta e abraços de agradecimento. Gente que vem me contar como a disciplina foi importante. Mais do que isso: como deu para aprender com meu jeito de encarar a vida. O que sempre me surpreende. Em meio aos meus próprios turbilhões emocionais, acabo esquecendo quanto gosto da história que construí para mim. “Foi um prazer ter tido aula com você e aprender tanto sobre a matéria quanto uma forma de vida que quero seguir (...) que desejo ter quando eu crescer. (...) Amo a forma como você leva a vida, sempre está de bom humor e transmite isso às pessoas que estão à sua volta”. Esse é o trechinho de uma mensagem que uma aluna me mandou. Da mesma sala, outra escreveu: “Tenho orgulho de dizer que fui sua aluna. Você me mostrou um lado meu que não sabia que era capaz de aparecer”. Fiquei comovida com esses e outros recadinhos. Talvez mais do que em semestres anteriores, porque, em dezembro, perdi uma das professoras que mais me ajudaram a acreditar em mim mesma. Benalva Vitório foi minha professora e orientadora na faculdade de Jornalismo. Foi ela quem disse que deveria me tornar pesquisadora, fazer mestrado e doutorado, morar e estudar um tempo em outro país. Que eu era capaz de conseguir bolsas de estudo para realizar sonhos acadêmicos. Não recordo uma vez que Benalva não tenha me recebido com um sorriso no rosto, um abraço apertado e um café para boas conversas. Com histórias sobre Portugal e África, onde trabalhou e viveu. Com indicações de livros que foram meus primeiros contatos na compreensão de quanto nossa sociedade é racista, machista, violenta e preconceituosa. E mostrando que o trabalho do pesquisador pode transformar a sociedade, mesmo quando é apenas um passo entre tantos a serem dados para a transformação. O último e-mail que trocamos foi em dezembro de 2020, quando contei que ingressara no doutorado. “Que notícia maravilhosa! Estou tão feliz por você! Avise-me quando estiver na Baixada para um dos nossos cafés filosóficos”, escreveu minha querida Benalva. Eu tentei o café. Mas ela adoecera e já não deu mais tempo. Me conforta saber que sempre fiz questão de dizer o quanto ela foi essencial para ser quem sou. Esse alguém que gosto de ser e que inspirou minhas meninas neste semestre. Um alguém que, tantas vezes olhando para ela, também desejei um dia ser.