[[legacy_image_306096]] Sandra Maria Braga Gottlieb, de nome artístico Gottsha, vê em Santos uma segunda casa. Dubladora de uma das personagens principais de Enrolados (2011) e com passagens por novelas globais, a carioca pode ser definida como uma artista múltipla. Ela tem 76 mil ouvintes mensais no Spotify e colhe os frutos da bem-sucedida montagem musical Mamma Mia!, na qual brilhou como Rosie ao lado de Maria Clara Gueiros e Claudia Netto. Com influências da disco music e da eurodance, Gottsha começou a se aventurar no universo artístico nos anos 1990 com o álbum No One to Answer, em inglês. Na TV Globo, um papel de destaque foi como Crescilda, em Senhora do Destino (2004). Em Santos, Gottsha relata experiências do passado, presente e futuro. Você tem várias habilidades diferentes. Como foi seu início na arte? Na verdade, eu sempre escuto da minha mãe que, antes de falar, eu assoviei e que isso chamou muito a atenção dela. Porque ela nunca tinha visto uma criança, um bebê praticamente, em vez de falar assoviar. Então ela já ficou antenada nessa questão musical. Meu pai era um DJ caseiro, então vivia fazendo festinhas hi-fi, que eu sou de época, e era exatamente isso. Tive muito essa influência da música na minha vida. O teatro não, foi uma coisa que depois, com o tempo, acabei indo fazer cursos. Mas a música sempre esteve em mim. Minha mãe, quando eu tinha 7 anos, me deu um gravadorzinho, e eu ficava ouvindo a minha voz cantando. Ouvia várias vezes. Então a minha mãe entendeu que eu realmente nasci para a música, ela veio comigo, foi um presente de Deus. É óbvio que a gente tem que ir se adequando e aprendendo as coisas, mas eu realmente tenho muita facilidade. Em suas performances, é possível ver uma afinidade com o inglês. Isso surgiu na infância?Ouvi muito o meu pai, esses discos da década de 1970, o disco music, muita cantora internacional. Fui muito influenciada pela música norte-americana. Mas fiz 7 anos de curso de inglês. Por um triz não fui professora. Morei nos Estados Unidos 3 meses e voltei. Foi tudo muito surpreendente, porque, na verdade, eu havia feito um trabalho todo em português. Tinha dois produtores, um tecladista e um DJ, e quis fazer um trabalho nacional, mas todo voltado para a dance music, a pop music, a soul music. Fui em todas as gravadoras e elas negaram esse trabalho. Vi que estava chegando uma onda da eurodance e falei para os produtores: “gente, vamos fazer uma loucura? Eu sou boa de inglês, vou procurar alguém que componha em inglês porque quero uma composição inédita”. Eles falaram: “vamos”. E o DJ trabalhava em uma rádio no Rio, isso também foi muito incrível porque eu lancei um single em 1994, que foi o No One To Answer, o nome do meu disco. Era um rock e a gente transformou numa dance music. E a música estourou no Brasil inteiro só tocando em uma rádio. As outras rádios plagiavam, copiavam. Elas esperavam a programação da RPC, que era onde o meu DJ trabalhava, copiavam a música e tocavam pirateada em outras rádios. E ela foi fazendo sucesso!. Aí, tudo aconteceu na minha carreira. Mamma Mia!, que foi um sucesso, é um de seus trabalhos mais recentes. Como foi o convite e a experiência? Mamma Mia! foi um presentaço na minha vida. Eu já sabia que ia fazer porque, antes da pandemia, haviam me convidado. Achei que essa peça não voltaria, mas ela voltou com uma energia elevada à décima potência. Porque já era feliz, e a gente voltou pós-pandemia em um clima, uma vontade de estar em cena. Minhas parceiras de cena foram incríveis, o elenco todo harmonioso, todos amigos. Foi uma felicidade. A gente lotou todos os teatros. Passamos por um teatro no Rio que era para ficarmos dois meses, e ficamos cinco. E aqui em São Paulo, tivemos que vir para o Vibra São Paulo, que é uma casa de 4 mil e tantos lugares, porque não tinha mais palco de teatro. Lotamos nossas oito apresentações. As pessoas saíam chorando, rindo, dançando. Foi uma comoção. Eu não sei se é a peça da minha vida, mas realmente, nesse momento foi de uma importância, porque me fez muito bem e eu vi que a gente fez muito bem para o público. Ano que vem a gente volta para São Paulo no segundo semestre com Mamma Mia! A dublagem é outra esfera da sua carreira. Pode comentar um pouco sobre esse tipo de trabalho?Comecei já tem uns 20 anos, mas não me aperfeiçoei. Não sou uma dubladora rápida, levo um processo, um tempo. E isso em dublagem não é bom, eles trabalham por hora. Quanto mais rápido você faz a dublagem, com competência, é melhor para eles. Mas eu fiz desenhos que ficaram cravados na história da dublagem: em Monstros S.A., fiz uma monstra, a Roz. Esse personagem era, originalmente, um homem, e nenhum homem passou nesse teste. Fui “enganando” os americanos, botei minha voz junto com as dos homens e fui escolhida pela voz. Eu fiz Frozen numa situação ruim, porque a dubladora passou mal e me chamaram no dia. Falaram: “Gottsha, vem aqui que tem uma música para você cantar em um desenho”. Eu nem sabia o que era Frozen, mas falei vou. Eu fiz a pedrinha Bulda, que dá força para a Anna se casar com o rapaz do filme. Mother Gothel foi um presente que eu batalhei para fazer. Fiz um teste que levou três meses indo pros Estados Unidos. Porque achamos que é tudo muito fácil, mas não é. Temos que ser aprovados lá fora. Você faz um teste aqui, ele vai para os Estados Unidos, para a Disney, para a direção, para a presidência da Disney. Eles ouvem sua voz, comparam com a original, veem se você tem aquele “vá-vá-vum” que eles gostam do Brasil. Então é muito difícil. Eu levei uns 3 meses sofrendo de ansiedade. Depois, o diretor me liga e fala: “você pegou o papel para fazer inteiro, cantando e dublando”. Fui considerada a melhor dubladora deste desenho no mundo. Me sinto uma artista muito afortunada. Claro que a gente se dedica, faço tudo com muito amor, muito carinho, presto muita atenção no que estou fazendo. Mas, quando a gente tem esse resultado, aí vê que tem sorte. Por que você decidiu fazer um tributo a Donna Summer? Ela foi a minha maior referência da vida. Meu pai colocava muito para tocar e eu copiava, ouvia e repetia ela. Fiquei pensando: “Por que eu estou fazendo esse tributo só agora?”. Não tenho a voz parecida com a dela, mas quando as pessoas perguntam com quem fiz aula de canto, falo que foi com ela. Me peguei me perguntando: “Por que eu nunca gravei uma Donna Summer? Que loucura. Quer dizer que a sua maior referência, você esquece?”. Às vezes, a pessoa pensa que será um cover, que vou imitar. Não, eu não vou. Vou fazer a Gottsha fazendo uma homenagem à grande estrela da minha vida. Tanto que eu estou desconstruindo tudo. Visualmente e musicalmente, está totalmente diferente. É óbvio que a essência temos que manter, mas vai ser a minha homenagem à minha professora de canto que já não está mais entre nós e deixou um dos melhores legados de disco music do mundo. Oficialmente, o tributo vai começar em novembro em um teatro do Rio de Janeiro. Você pretende trazê-lo para São Paulo? Pretendemos viajar o Brasil com esse show e tenho até algumas propostas de fora do país. Você tem uma relação de proximidade com Santos, certo?Aqui, me sinto realmente em uma segunda casa. Eu não sei o que acontece comigo em Santos. Conheço outros lugares, já fiz shows em vários outros lugares de São Paulo. Não sei se a cidade me lembra um pouco minha casa, se o povo daqui é muito hospitaleiro... Sou muito bem recebida aqui, acho as pessoas simpaticíssimas, me sinto em família em Santos. Consegui amizades que vou levar para a vida inteira, então quando chego me dá uma felicidade, uma paz, um conforto. Eu amo Santos. Eu não trocaria o Rio por Santos porque eu tenho família lá. Senão, talvez trocasse. Estou um pouco lá, um pouco cá. Vocês me verão muito aqui. Há algum projeto em andamento? Tenho um convite para fazer o musical A Noviça Rebelde, o Mamma Mia!, que vai voltar no segundo semestre, o tributo à Donna Summer. Talvez, tenha um filme para fazer, que cinema eu nunca fiz, aí vai ser uma novidade mesmo na minha carreira.