[[legacy_image_299349]] Chegou aqui em casa, na última terça-feira (19), a caixa com os exemplares do meu novo livro. É o resultado da minha dissertação de mestrado, defendida em 2014, e que aborda movimentos migratórios e mobilidade humana. Na mesma semana, na quinta, apresentei em um evento os primeiros resultados da minha atual pesquisa, sobre os retrocessos nos direitos e nas conquistas das mulheres a partir da pandemia. Governos e sociedades, em todo o mundo, inclusive por aqui, se aproveitaram desse período de emergência para diminuir, quando não extinguir, mecanismos, leis e instrumentos de proteção a mulheres, meninas e crianças. Da saúde à educação. Do trabalho à violência doméstica. Historicamente, as mulheres sempre perdem mais nas crises. Sejam econômicas, políticas, sanitárias. Em guerras ou nos mais diversos conflitos, todos perdem, claro. Mas nós perdemos mais e demoramos mais para recuperar, quando recuperamos, espaços duramente batalhados. Esse pensamento sobre os passos atrás na realidade feminina dará vida, em 2025, à minha tese de doutorado. Até lá, sei que ainda vou ouvir muito a infame pergunta: “Isso tudo não é vitimismo?” Vamos lá… O vitimista é aquele que acha que o mundo está contra ele, é reativo a qualquer mínima observação e não assume responsabilidade pelos próprios erros. Não é uma postura definida por gênero, classe, raça, etnia, limitações físicas, entre outras categorias. Faz-se presente em pessoas das mais diferentes origens, culturas e formações. No entanto, quem mais vejo com essa postura atualmente é o homem branco, heterossexual (ou que diz ser), de classe média-alta, machão, que anda incomodado com a diversidade de pessoas tomando conta das propagandas na TV, dos cargos mais altos nas empresas, das salas de aula das universidades, dos aeroportos, dos hotéis, dos bairros nobres. Enfim, dos lugares de decisão e até então de privilégio para poucos, nem sempre bons. Vítima é quem é alvo de opressão, maus-tratos, discriminação. Quem tem direitos suprimidos. Alguém que, apesar de todo o sofrimento com o qual tem ou teve que lidar, em algum momento se sente apoiado, compreendido, protegido por grupos e movimentos, sendo, assim, capaz de se libertar e assumir a autoria da própria vida. O que inclui se engajar para que ninguém mais sofra ou fique para trás. A vítima pode se tornar vitimista? Sem dúvida. Os excessos existem. Mas não é isso que incomoda. O que incomoda é justamente a vítima tomar consciência, se empoderar e aprender a dizer não para abusos, sejam eles quais forem, e que insistiram em fazê-la acreditar ser seu destino. Antes de falar por aí que tudo hoje é mi-mi-mi, preste atenção se o que você assim define não é a dor que dói no outro. Não é porque essa dor é diferente da sua que merece menos crédito ou empatia. E quem acredita que “Nossa, agora tudo é sobre essas pessoas, essa coisa toda identitária” não entendeu que, até aqui, uma história única foi contada. Finalmente, estamos contando todos os lados das histórias e suas consequências. O mundo precisa ser justo para todas as pessoas. Se isso te incomoda, você é o algoz.