[[legacy_image_297607]] É a segunda vez que tenho a oportunidade de fazer uma matéria com Filipe Toledo e o que mais chama atenção, enquanto entrevistador, não é apenas o atleta de sucesso, que se projetou de Ubatuba (SP) para os quatro cantos do planeta e que, no final de semana passado, conquistou o título de bicampeão mundial. O ser humano por trás do surfista é igualmente interessante e essencial para Filipe ter brilhado nas ondas e superado, inclusive, os próprios limites. Estamos falando de um pai dedicado – mesmo com os momentos de ausência provocados pela carreira –, de alguém que procura converter um pouco do que conquistou em oportunidades para futuros talentos – em projetos como a escola de surfe que fundou em Ubatuba e o circuito Kid’s On Fire –, de uma pessoa que valoriza e se alimenta da fé e também de um atleta que já pensa em como será sua vida quando parar de surfar. No bate-papo a seguir, o surfista de 28 anos analisa sua trajetória até aqui e mostra um pouco da sua essência além do esporte, que inclui um lado empreendedor. O que foi mais desafiador para conquistar o bicampeonato de surfe?Administrar a lesão que sofri no joelho foi um dos principais obstáculos durante o ano. A desconfiança de estar 100%, o medo de ser algo mais grave e que me tirasse da temporada… Todas essas questões passavam pela minha cabeça. Mas, com muito foco, determinação, apoio da família e o trabalho sério dos profissionais que estão comigo, tudo não passou de um susto e conseguimos superar todas as adversidades. Acredito que o grande desafio mesmo era confiar que um segundo título consecutivo viria, me manter focado após o meu primeiro título, até porque um bicampeonato seguido era inédito para os brasileiros. Fiquei bem mais ansioso nas finais deste ano, só que deu tudo certo. Agora vou representar o Brasil nas Olimpíadas, o que é o sonho de qualquer atleta. Creio que uma medalha olímpica seja o ponto mais alto que um surfista possa alcançar. Estou muito empolgado para o próximo ano e não vejo a hora de poder viver essa experiência. Olhando a sua trajetória no esporte como um todo: quais foram os altos e baixos que mais o fizeram crescer?O primeiro título mundial (em 2022) foi muito especial, e vai ficar marcado para sempre na minha memória, mas acredito que, neste ano, consegui alcançar o ponto mais alto da minha carreira até o momento. O ano foi perfeito. Consegui vencer três etapas, me lesionei, dei a volta por cima e ainda conquistei a classificação tão sonhada para as Olimpíadas de Paris. O ano mais difícil para mim foi 2019, quando fui diagnosticado com depressão. Percebi que havia algo errado comigo, não sentia mais prazer em surfar e as coisas não estavam fluindo. Com a ajuda da minha esposa, da minha família e de profissionais, consegui superar essa barreira e, desde então, sinto que não parei de evoluir, em todas as áreas da minha vida. Acho que esse foi o grande ponto de virada. Como administra a distância e a ausência no dia a dia da mulher e dos filhos? Esse é um dos fatores mais difíceis para um atleta de alta performance. É algo que nós nunca vamos nos acostumar. É sempre difícil ter que ficar longe da família em prol da minha carreira em alguns momentos do circuito mundial. Mas isso serve para valorizar ainda mais quando estamos juntos. Dou a maior atenção, carinho e amor possível para eles e, sempre que posso, tento incluí-los nas viagens. A única forma de amenizar um pouco a dor de não estar com eles é saber que estou fazendo isso por um bem maior e que vai beneficiar não só a minha carreira, mas a vida deles também. Foi difícil se acostumar a morar fora do País? Uma mudança radical (para os Estados Unidos) sempre é difícil no começo, só que tudo vai se ajeitando. É bem diferente morar em outro país, estamos falando de outra cultura. Mas, conversando com a minha família, foi uma mudança muito importante para a minha carreira, era uma oportunidade. Morar em San Clemente e ter a chance de surfar num mar como o de lá praticamente todos os dias me fizeram evoluir muito como surfista. Hoje, estou colhendo os frutos. Você tem se dedicado a iniciativas paralelas para estimular futuros talentos no surfe e incentivar também a educação. Essa era uma vontade antiga?Esse sempre foi um desejo meu. O surfe é minha vida. Todas as coisas que conquistei foram graças ao meu dom e à minha dedicação constante ao esporte. A escola de surfe e o circuito Kid’s On Fire foram criados para desenvolver o esporte na região de Ubatuba e poder dar visibilidade para jovens talentos de todo o Brasil. Fico muito feliz pela procura pelo circuito ser maior a cada ano e isso só nos inspira a continuar e buscar outras formas de melhorar para as próximas edições. Também sou padrinho do projeto Namaskar, o que considero muito gratificante, porque ele não só oferece a oportunidade de praticar esporte como dá acesso a educação, cultura e várias ferramentas incríveis para o futuro das crianças. Recentemente, você entrou de sócio de uma rede de culinária havaiana. Pretende empreender cada vez mais?Com certeza! A carreira de surfista não dura para sempre, tenho que começar a pensar no meu futuro desde agora. É muito importante olhar para esse lado, porque assim, quando eu não puder surfar mais, seja por limitações físicas ou qualquer outro motivo, terei como me manter, sustentar a minha família. Quero entrar em projetos que tenham a ver comigo, e foi isso que enxerguei na Let’s Poke. O Havaí é um dos lugares superespeciais que conheci. A cultura deles tem bastante a ver comigo, com minha essência e com meu propósito. Os nomes dos meus filhos são havaianos: Mahina significa luz da Lua e Koa quer dizer guerreiro. Você fala bastante em Deus. Como definiria a força da fé na sua vida?Deus é tudo para mim. Ele é perfeito. Falo com toda a certeza do mundo que sem ele eu não seria nada. A fé sempre foi uma aliada da minha família (Filipe é evangélico). Esse ensinamento foi passado desde novo pelos meus pais e eu tento transmitir a importância disso para os meus filhos.