[[legacy_image_307818]] A dentista Rose Marques, que tem consultório em Santos, é uma das maiores especialistas em implantes dentários no País e recebeu, este mês, o certificado Guinness World Records pelo recorde de maior coleção de modelos dentários humanos do mundo. São quase 4 mil pares de modelos de mais de 100 mil dentes confeccionados. “Não podia ter dentes repetidos, todas as bocas tinham que estar com o seu respectivo CPF, não poderia ter duplicatas”, explica a profissional, ressaltando o rigor da comissão julgadora. Formada em 1992 pela Faculdade de Odontologia de Lins (SP), Rose fez diversos cursos de aprimoramento, totalizando 170 certificados em países como Alemanha, Estados Unidos e Suécia, tornando-se referência em reabilitação oral usando tecnologia de ponta, como escâner 3D e uma espécie de impressora que produz implantes dentários na hora. “O futuro é hoje nessa área”, destaca. Há quanto tempo a senhora trabalha com implante dentário? O que mudou desde então?Há mais de 25 anos. O que mudou foi a superfície dos implantes. Hoje, o implante tem uma superfície tratada e modificou também a geometria do implante, que faz com que ele se integre ao osso, ou seja, que o osso cole no implante mais rapidamente. Qualquer pessoa pode fazer implante?Enquanto a pessoa ainda está com crescimento ósseo, não deve fazer implante. Então, a idade mínima gira em torno de 21 anos. Agora, a idade máxima não existe. Se a pessoa estiver com saúde, estiver bem, pode fazer. Há dois meses, fiz implante em uma boca inteira de um paciente de 97 anos. Outra contraindicação é quando o paciente fuma. Não devemos fazer implante em fumante. Outro empecilho é um medicamento chamado alendronato. Se o paciente usa alendronato durante muitos anos, ele não pode fazer implante. E ainda quem está com a glicemia descontrolada, acima de 140. Esse tipo de diabético não pode fazer. Agora, se o diabetes está controlado, não tem problema nenhum. Antes, esse processo de implante era bem sofrido e demorado. Como está hoje? Antigamente, colocávamos o implante e tínhamos que aguardar seis meses para inserir o dente, porque o implante é a raiz. A parte de cima, a coroa (o dente), tinha que aguardar seis meses para ser colocado. Hoje, tem implantes que a gente chama de carga tardia, com espera de apenas 21 dias, e, em muitos casos, já dá para fazer carga imediata. Nestes, a gente coloca os parafusinhos do implante, molda, e dois dias depois, já insere os dentes definitivos. Logo após a colocação dos implantes, o paciente já sai comendo, mastigando, não tem pós-operatório, não incha, não dói. Qual o futuro dessa área? O que veremos em breve em termos de tecnologia e avanço? Quanto ao futuro, em breve teremos mudança de material dos implantes. Ao invés de serem feitos em titânio, serão confeccionados em zircônia. O próprio parafuso do implante será feito em zircônia. Isso vai ser bom para as áreas estéticas em dentes da frente. Algumas vezes, quando o paciente tem pouco osso, fica uma sombrinha cinza que transparece o parafuso do implante. Com essa nova tecnologia, esse problema será resolvido. Mas o futuro já é hoje, porque atualmente nós trabalhamos com um scanner 3D, no qual a gente escaneia o dente do paciente, e há uma fresadora que entalha o dente em zircônia imediatamente. Então hoje nós fazemos uma boca inteira de um dia para noite, a pessoa chega segunda-feira sem dente, terça-feira ela está sorrindo, mastigando, comendo normalmente. Então, é incrível o avanço que houve nessa área. Para colocar um implante, com a tecnologia que nós temos, demoramos cerca de três minutos marcados no relógio. Então, assim, é rápido e indolor. É muito, muito, muito tranquilo. Hoje, tem muito paciente que fala assim: não quero fazer tratamento de canal, faz implante porque é mais fácil. Mas lógico que a gente tem que preservar o dente natural sempre que possível. Como foi o processo de candidatura para o Guinness e o que foi preciso para conseguir entrar no livro dos recordes?Inicialmente, entramos no site do Guinness e fizemos contato. Após uma reunião com o presidente do Guinness, foi feito um levantamento para a possibilidade de se criar uma nova categoria que encaixasse a minha coleção de dentes. Passada essa etapa, eles designaram uma juíza adjudicadora que deu as orientações. Não podia haver dentes repetidos, todas as bocas tinham que estar com o seu respectivo CPF, não poderia ter duplicatas. Tivemos que organizar tudo em ordem cronológica, crescente, além de separar todo esse material, porque tinha pacientes que retornavam e tinham modelos repetidos. Foram revisados um a um. Tudo isso foi colocado em caixas de acrílico transparente para que os juízes do Guinness pudessem checar. Eles são muito rigorosos, exigentes? Sim, eles são extremamente exigentes. Já estávamos com tudo muito organizado. Tínhamos o inventário de todos esses modelos. No dia da quebra do recorde, foram designados dois dentistas para testar que as bocas eram humanas e verdadeiras, além de dois profissionais de TI para checar as planilhas para ver se não tinham homônimos. Na verdade, encontramos duas mulheres com o mesmo nome, dois homens com o mesmo nome. Cada caixa foi localizada e foi mostrada para os profissionais da área de saúde, e eles atestaram que as bocas eram de pessoas diferentes. Os CPFs eram diferentes e as arcadas também. Então, assim, foi tudo checado com lanterna para ver se realmente estavam os pares de modelo em cada caixa, arcada superior, arcada inferior de cada paciente. O processo foi demorado?Para entrar no livro dos recordes foram décadas de trabalho. Trabalhei cerca de 16 horas por dia preparando a boca dos meus pacientes, preparando os dentes. Eu saía do consultório às 2 horas, às 3 horas, todos os dias. Fiz isso por mais de 25 anos, e esse recorde é fruto de todo esse trabalho. Hoje, tenho 12 mil pacientes em Santos. Se não fosse essa clientela tão grande, também esse recorde não existiria. Agradeço muito à população da Baixada Santista. Atualmente, também atendo muita gente de outros estados e até mesmo de outros países. O que te incentivou a participar desse processo tão minucioso?Foi deixar um legado para as novas gerações, um exemplo para essa geração nova que está vindo, de que com fé, amor e muito, muito trabalho, nós conseguimos bater recordes.