[[legacy_image_304474]] Wes Anderson é um dos diretores mais interessantes da atualidade e seus filmes têm características muito próprias e muito particulares, que os tornam facilmente reconhecíveis. Ele também costuma lançar um filme a cada dois anos, em média. Por isso fiquei tão espantado ao esbarrar em quatro historinhas que ele dirigiu para a Netflix e foram lançadas no mesmo 2023 em que chegou às telas seu excelente Asteroid City. A Maravilhosa História de Henry Sugar é a maior delas, com 40 minutos de duração. Cada uma das outras tem exatos 17 minutos: Veneno, O Cisne e O Caçador de Ratos. Todas carregam as marcas do diretor: tons pastéis, design de produção muito característico, atuações absolutamente teatrais e um tipo de humor que pode ser chato e repetitivo para alguns, mas que eu, pessoalmente, adoro. Os quatro curta-metragens são inspirados em histórias do escritor britânico Roald Dahl, que eu conheço bem por outra obra icônica também levada às telas: A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ele também é responsável por histórias conhecidas como Matilda, James e o Pêssego Gigante e O Fantástico Senhor Raposo, que o próprio Wes Anderson também adaptou em 2009. Mas, ao contrário do que eu esperava, as histórias têm muito pouco de infantis e são apresentadas de uma forma muito diferente, que mistura o teatral com o literário, com longas descrições feitas pelos próprios personagens (que falam diretamente com o público), cenários que são modificados ao longo da história. Na história principal, somos apresentados a Henry Sugar, um homem que demonstra a rara capacidade de enxergar mesmo com os olhos vendados. Ele aprendeu a técnica com um guru indiano bem esquisito, no passado, e a utiliza para ganhar dinheiro em apresentações duvidosas em um circo. Em O Cisne, um jovem estudante é perseguido por colegas violentos que o obrigam a realizar tarefas humilhantes, em uma escalada de horror que dificilmente vai terminar bem. É a mais tensa (e a mais filosófica) de todas as histórias apresentadas. Veneno mostra uma situação-limite: um homem descobre que, enquanto estava lendo na cama, uma cobra da espécie mais venenosa do mundo entrou por dentro de seu pijama, se aninhou e dormiu em seu peito. Qualquer tentativa de gritar ou de se mexer pode significar a morte… E em O Caçador de Ratos, eu imaginava algo parecido com o Flautista de Hamelin, mas o que vemos é um homem que vive de caçar ratos tentando explicar a um mecânico e um repórter seus planos mirabolantes para caçar os roedores: “Para você caçar um rato, você tem que entender o rato. Você tem que ser o rato”. Além de muito bem dirigidas, as histórias ganham muita força graças ao elenco maravilhoso que estrela as tramas e que é o mesmo em todas as narrativas. À frente, demonstrando todo o seu talento também para fazer rir, dois colaboradores habituais de Anderson: os ganhadores do Oscar Ben Kingsley (de Gandhi) e Ralph Fiennes (A Lista de Schindler). Também no elenco estão Benedict Cumberbath, Rupert Friend, Richard Ayoade, Dev Patel e Benoït Herlin. Se você curtiu os filmes anteriores de Wes Anderson, como Grande Hotel Budapeste, Os Excêntricos Tanenbaums, Moonrise Kingdom e Viagem a Darjeeling, assistir aos curtas é certeza de boa diversão, cheia de ironia, curtinha e quase sempre leve. Todos os curtas estão disponíveis na Netflix.