[[legacy_image_265129]] Foi amor à primeira vista. Desde a infância, quando colocou os pés pela primeira vez em um circo, Maicon Clenk se dedica ao ilusionismo. E, aos poucos, foi incorporando no seu trabalho outras linguagens artísticas, devido à sua formação múltipla de ator, bailarino e acrobata. Até que, em 2005, montou a sua própria companhia e deixou de vez o papel de mágico tradicional, para investir em espetáculos do que chama de teatro ilusionista, ou seja, produções que, para contar uma história, combinam dramaturgia e ilusionismo. Hoje, as montagens da companhia de Maicon já foram vistas por mais de 20 milhões de pessoas. No momento, o curitibano de 39 anos se concentra no desenvolvimento do seu novo espetáculo, que tem estreia prevista para julho em São Paulo e, depois, vai excursionar pelo País. Na entrevista, o ilusionista, diretor e coreógrafo faz ainda um balanço do momento atual dos mercados de magia e circo. Qual a sua análise da figura do ilusionista hoje em dia?Eu sou encantado pela magia. O ilusionismo se divide em diferentes categorias: mágica de salão, que é quando você faz festas de aniversário; close-up, que consiste na mágica mais de bar e de rua, em que o ilusionista deve estar próximo das pessoas; e há também as grandes ilusões, que são os números que acontecem em palcos, com efeitos, objetos, bailarinos, assistentes... Quando eu trabalhava, digamos, como mágico tradicional, sempre fiz mais as grandes ilusões. Mas reparo que, hoje, principalmente no Brasil, existe pouca inovação no ilusionismo. Basta ver que não temos grandes estrelas da magia atualmente. E olha que os números de mágica existem há mais de 4 mil anos. Trata-se de uma das artes mais antigas. As técnicas vêm passando de geração para geração e, mesmo sem tanta inovação, continuam encantando pessoas no mundo inteiro. Do ponto de vista histórico, os mágicos surgiram nas ruas, foram para os teatros e, depois, para os circos. Hoje em dia, Las Vegas, nos Estados Unidos, é o polo de magia mais forte do planeta. Lá, você encontra bastante demanda por espetáculos de ilusionismo e, consequentemente, tende a ser o lugar onde ocorrem mais inovações. Atualmente, pouco se ouve falar que o circo chegou para uma temporada na cidade, algo que era comum nas gerações anteriores. O que contribuiu para isso?O circo tradicional ainda tem dificuldade para se enquadrar na realidade atual do mercado, em que os responsáveis por produções artísticas devem escrever projetos para ir atrás de patrocínios. Também não existem muitas leis de fomento ao circo, que tem sofrido bastante no Brasil com a falta de políticas de incentivo. O mercado de entretenimento em geral anda bem forte e competitivo, e o circo não está tendo o investimento necessário para acompanhar isso. Ele vem tentando se reencontrar para sobreviver. Mas falta bastante para realmente se desenvolver com pesquisa, qualidade... Há, inclusive, poucos locais de formação. A Escola Nacional de Circo ficou um período fechada. Fora do País, temos o exemplo bacana do Cirque du Soleil, que conseguiu agregar valor à arte circense. Só que, para isso, ele contou com um investimento pesado do governo canadense. Na sua companhia, você procura montar espetáculos que mesclem o ilusionismo com o teatro. Acha que essa proposta faz com que o público deixe de ficar tentando adivinhar quais são os truques por trás das mágicas?Quando você está em cena com um show de mágica tradicional, é isso mesmo: as pessoas, por mais que se surpreendam, ficam o tempo todo tentando descobrir como aquilo foi feito. No teatro ilusionista, que é como chamo o tipo de trabalho produzido pela minha companhia, o público continua tendo essa curiosidade por desvendar os truques. A diferença é que as pessoas se entretêm com a história que está sendo contada. Elas se conectam com aquilo, se emocionam, refletem a respeito... Por exemplo, no nosso espetáculo, alguém não voa só por voar. Existe um motivo para que aquilo aconteça: pode ser porque o personagem está sonhando, indo para outro planeta etc. E a gente não utiliza textos, diálogos, pois a comunicação com a plateia se dá pelo visual, pelos efeitos. Temos vários artistas circenses na nossa equipe. Nas nossas produções, a figura convencional do mágico com assistentes e pombos perde um pouco o sentido. Afinal, todos os personagens da história podem ser “mágicos”, usar a magia em cena. Como foi a sua formação?Eu já fui o mágico que fazia o ilusionismo tradicional em shows, em programas de TV como os da Eliana e do Faustão. Mas, desde criança, estudo outras técnicas artísticas e fui agregando esses conhecimentos. Além de ilusionista, me formei bailarino, ator, acrobata e trabalhei por muitos anos em outras companhias, até montar a minha em 2005. Quando fui ao circo pela primeira vez, aos 4 anos, fiquei absolutamente encantado. A partir daquele momento, as minhas brincadeiras, a minha vida, tudo foi direcionado para o ilusionismo e para o circo. Como eu não tinha noção das técnicas, tentava criar os números de magia do meu jeito em casa. Fazia shows na vizinhança e em aniversários de outras crianças. Aos 10 anos, apresentei a minha primeira grande ilusão. Foi o número clássico de você trancar a assistente no baú, jogar um tecido por cima e trocar de lugar com ela, aparecendo dentro do baú, amarrado. Eu fiz o maior sucesso com essa apresentação e comecei a participar de eventos locais, como os da Prefeitura de Curitiba. E nunca mais parou.Exatamente. Certo dia, passei a ter de vizinhos um profissional de circo e a sua família. Ele me ajudou a montar equipamentos, foi uma espécie de mentor. Como eu trabalhava com muita gente do teatro, também reuni essa galera para fazer mágica. Mais tarde, fui diretor do parque do Beto Carrero. Hoje, nos meus espetáculos, costumo me meter no figurino, na luz, em tudo.