[[legacy_image_302842]] Múltipla, Clarice Falcão procura fazer uma espécie de rodízio na sua carreira, entre a música e as artes cênicas. Depois de escrever e protagonizar a série Eleita, do Prime Video, ela volta a sua atenção para as facetas de cantora e compositora com o lançamento do seu quarto álbum, Truque, que é um projeto visual e serve de pontapé inicial para a nova turnê de Clarice. Na entrevista, a cantora, compositora, atriz e roteirista de 33 anos, que ama comer e ver reality shows de culinária, fala entre outros assuntos do seu processo criativo e do amadurecimento enquanto mulher e artista. Considera seu novo álbum, Truque, um trabalho pessoal?Eu tenho muita dificuldade para fazer o que não é pessoal. Desde meu primeiro disco, Monomania, há algo meu tanto nos temas que abordo quanto na linguagem que utilizo. São coisas que vêm da minha visão de mundo e que estou vivendo ou já vivi. No álbum Monomania, eu estava experimentando o primeiro amor. Depois, no Problema Meu, tratei justamente de independência e de se entender, de se descobrir no pós-desilusão amorosa. Aí, no Tem Conserto, meu terceiro disco, explorei o que estava dentro da minha cabeça, foi um trabalho com enfoque muito mais interior. Todos os meus álbuns são pessoais, mas acho que o Truque é o mais pessoal de todos, por juntar um pouco de tudo o que me tornei e fiz até aqui. Quando a gente chega aos 30 anos, se compreende melhor, há um entendimento bem maior de quem somos. E continua acreditando no amor? Sim. Seria sem graça viver esperando não dar certo no amor. Na minha opinião, a gente aprende quebrando a cara. Sem falar que todo mundo já se deu mal no amor. Portanto, é algo universal, que une as pessoas. Hoje, tenho consciência de que posso entrar bem no amor, e isso é quase mais mágico, porque uma coisa é você se jogar sem saber que não tem rede de segurança e outra é você se jogar consciente de que não existe nenhuma rede para se segurar. Chega a ser uma atitude até mais ousada. No Truque, há uma música sobre eu ser ateia. Tenho dificuldade para acreditar em energias e em Deus, só que creio demais em se apaixonar em todos os sentidos, em viver a vida com encanto, mesmo que, com o tempo, você possa se decepcionar e se frustrar. Desta vez, você participou mais intensamente do processo de produção do álbum. Sente-se mais à vontade nesse papel? No meu primeiro disco, já contribuí com a produção, mas ainda era bastante verde nesse sentido. Agora, como o Truque foi feito em casa, havia a possibilidade de experimentar à vontade. Por não estar limitada aos horários de estúdio e contar com meu próprio equipamento, se quisesse, podia passar a noite inteira testando alternativas e ideias. Foi como um mundo se abrindo... Desde o Tem Conserto, trabalho e aprendo demais com o Lucas (de Paiva, produtor) e a gente se entrosou de tal maneira que nem reparei que naturalmente passei de aprendiz para parceira de produção dele em Truque. Pelo que se interessou primeiro: pela música ou pelas artes cênicas? Desde criança, sou apaixonada por ouvir e contar histórias. Em casa, passei a montar peças e também a fazer shows; então, veio tudo meio misturado. O que queria era entreter as pessoas, me comunicar. Curiosamente, a primeira vez em que me coloquei como artista criadora foi na música. Postei algumas canções que compus para o Monomania e elas viralizaram. Na época, os meninos do Porta (dos Fundos) estavam montando o elenco do canal (do YouTube) e me curtiram enquanto criadora, por isso me convidaram para integrar o projeto, sem saber se eu atuaria bem nos vídeos. Após criar algo do zero, da minha cabeça, na música, me testei como roteirista, sendo que já havia feito novelas e peças como atriz. Uma coisa levou para outra. Digo com certeza absoluta que a primeira vez que me senti conectada com o público intimamente foi na música, através das minhas composições. Hoje em dia, tudo que aprendo como compositora agrego para a roteirista e vice-versa. Esse mesmo tipo de relação mantenho entre a cantora e a atriz. Como administra essa sua agenda multifacetada?Procuro fazer um rodízio. Já tentei equilibrar os vários pratos (das diferentes atividades) ao mesmo tempo, só que foi difícil demais, enlouquecedor. Por exemplo: quando escrevi com o Célio (Porto, melhor amigo) a série Eleita e protagonizei os episódios (para o Amazon Prime Video), foquei no seriado e dei uma pausa na produção do Truque. Esse foi um dos motivos de o álbum ter demorado quatro anos para ficar pronto. O bom dessa alternância é que não enjoo de nada. E eu gosto de ter objetivos e projetos apenas a curto prazo. Neste momento, meu foco está no show da minha nova turnê. O que representou para você as chances que teve de trabalhar com seus pais e com a sua irmã? Meus pais sempre trabalharam juntos, como uma dupla de roteiristas. Cresci nesse ambiente, porém teve um momento em que precisei trilhar o meu próprio caminho. Assim vieram o meu primeiro disco e o Porta (dos Fundos), coisas que não têm nada a ver com o que os meus pais produzem. Faz tempo que não trabalho com os dois, mas eles estão presentes na minha obra, pelo aprendizado que obtive com ambos. Uma das minhas irmãs, a Tatiana, é roteirista e fizemos juntas um curta há uns 15 anos. Todas essas experiências foram muito legais. Ah, quando namorei o Gregorio (Duvivier), nós também trabalhamos bastante juntos.