[[legacy_image_262237]] Não sou uma pessoa nostálgica. Gosto de seguir sempre em frente, tentando não levar excesso de bagagem, porque sei que custa muito. Ainda assim, às vezes carrego coisas que pesam demais e que atrasam a caminhada. Então, chega o momento de tirar tudo das malas e começar do zero de novo. Isso significa, muitas vezes, assumir que o caminho deixado para trás não pode ser retomado. É preciso calcular outras rotas, inventar novas trilhas. Enquanto a mente cria caminhos possíveis, as mãos trabalham na nova bagagem. Uma a uma, cada peça ali precisa ser essencial, para não cairmos no erro de todo acumulador e pensarmos: “Pode ser que eu ainda precise disso”. Minha estratégia contra esse pensamento é: passou-se mais de um ano, tive a oportunidade de viver todas as estações; o quente, o frio, o úmido, o seco... algumas vezes, tudo ao mesmo tempo. Se aquelas peças não foram úteis, perderam a sua chance de permanecer. Sorte que as boas memórias são leves e sem volume. Guardo-as num porta-joias, na mala de mão, porque devem ser sempre fáceis de acessar. Os conhecimentos, embora também não ocupem espaço, nem sempre ficam assim à mão. Às vezes, é preciso cavar, tirá-los lá do fundo e trazer à tona para poder usá-los. Mas eles sempre estão lá, luminosos e rarefeitos, mesmo quando consistentes. O peso está, quase sempre, nos títulos. Explico: é pesado achar que o conhecimento acadêmico nos define. Isso prende, e tem me prendido há um tempo. Então, me dou conta de que os títulos podem se tornar uma amarra. Não que eles não sejam importantes. É legítimo ter muito orgulho do conhecimento adquirido nas décadas de sala de aula. Nada pode destruir essa construção. Mas podemos nos prender a uma condição de profissional desta ou daquela área e cortar as asas das nossas possibilidades de reinvenção. Além disso, o excesso de bagagem não impede que a nossa mente nos pregue peças. Ela pode dizer que não somos bons o suficiente e, por isso, nada valerá a pena. Ainda busco maneiras de vencer a síndrome da impostora, mas é um caminho longo, que precisa ser lento para ser firme, e acredito que será mais fácil se as cargas estiverem mais amenas. Assim, deixo agora para trás algumas belas paisagens e alguns conteúdos dessa bagagem que carrego pela vida. Ninguém disse que o trajeto seria fácil. Ninguém disse que seria preciso deixar tantas coisas pelo caminho e até queimar algumas pontes pelas quais passei. Mas é assim. Porque o novo exige isso da gente. Escrever neste espaço me ajudou muito nos mais diferentes momentos que vivi nestes últimos anos: das alegrias derramadas nas páginas e compartilhadas com os leitores-amigos, à cicatrização das dores que põem de joelhos até os mais fortes. Foi uma bela caminhada até aqui e sou muito grata por isso. Mas é hora de pegar o caminho que vai me levar para um outro lugar. Ainda não sei o que me espera nele, mas tentarei fazer o melhor, assim como o fiz até aqui. Espero que nos encontremos pela estrada, quando pararmos para contemplar a beleza do horizonte, nestas gratas surpresas com as quais a vida presenteia os que têm coragem.Boa viagem para nós! ++++++++++Com a gente desde a estreia do domingo+, Beth Soares dá uma pausa nas nossas crônicas (eu sei, é desolador) para abrir espaço a outros movimentos na sua vida, em Portugal. Neste espaço, ela dividiu conosco as paisagens e personagens do seu cotidiano, seus dilemas e convicções, seus amores e desamores. Pudemos acompanhar as vitórias na sua formação acadêmica e a aventura que foi seu casamento além-mar. Só podemos desejar toda felicidade e mentalizar que não seja uma despedida e, sim, um até breve. Te esperamos, ansiosos por novas histórias, bagagens e caminhos. Gratidão. Fernanda Lopes, editora