[[legacy_image_288637]] Minha melhor amiga e eu fomos assistir ao filme Barbie. Vestidas de rosa, como todas na sala de exibição lotada em uma noite de terça-feira, a gente se divertiu. O filme é bom, nos trouxe lembranças de infância – e emoções variadas. A primeira Barbie que ganhei era ruiva, pilota de corrida! Presente de uma tia ao completar 7 anos. Não fui das primeiras meninas da escola a ter a boneca. Era cara e minha mãe ainda não queria que brincasse com uma boneca que representasse uma adulta. Aos 9, da mesma tia, ganhei Barbie com um vestido de festa. A Barbie é tão importante que seu filme é uma autocrítica à trajetória da boneca, uma crítica ao mercado bilionário que movimenta e desperta mulheres e homens para o debate sobre igualdade de gênero. Uma sátira que chama para a conversa. Nem tudo é despertado por teorias e palavras difíceis. E para minha amiga, bem cheio de cor-de-rosa, já sei que presente de Natal comprar. A essa altura, minha mãe já estava confortável em me presentear com itens da boneca. Nunca tive a casa da Barbie, mas tive o Banho de Glamour, que eu amava. Também ganhei a moto e o salão de beleza. Depois de voltar de moto ao final de um dia de trabalho em seu próprio salão, minha Barbie tomava banho de espuma demorado. Acho que aí entendi o prazer da independência. Tive a sala de jantar, o sofá, a cozinha... O quarto era de uma marca mais em conta. As roupinhas, minha avó comprava de senhoras que faziam e vendiam artesanato. Não tendo tudo da Barbie, mãe e vó me ensinaram que as coisas custam e é preciso improvisar. Não fui menos feliz. Enquanto todas essas lembranças surgiam, minha amiga disse que nunca teve uma Barbie. Eu não sabia disso ou não lembrava. A Barbie é um fenômeno que se adaptou ao tempo. E ela continua causando polêmica. Os intelectualoides de plantão já criticam as mulheres que vão ao cinema com roupas cor-de-rosa, vítimas do marketing, prestigiar esse símbolo do capitalismo e do sexismo. Infelizmente, Barbie também é tudo isso. Porém, apenas reflexo de como funciona o mundo. Antes de não se reconhecerem nos padrões físicos da boneca, meninas já eram reprimidas por cruéis e intimidadores padrões sociais e de beleza, que as diziam inadequadas desde cedo. Se tais padrões não existissem, será que o impacto da aparência de Barbie seria tão grande? Antes de terem contato com uma boneca vaidosa e com atributos sedutores (boca vermelha, pés sempre em saltos altos, cabelos longos, seios grandes), tantas dessas meninas eram alvos do desejo e do abuso de homens e incentivadas a, de fato, parecerem adultas em tantas ocasiões. Será que a boneca seria um fator de confusão sobre a sexualidade se os contextos que a cercavam já não reforçassem isso o tempo todo? A Barbie nasceu nos Estados Unidos em 1959, criada por Ruth Handler. Ela não queria que a filha, Bárbara, brincasse apenas com bonecas bebês, sugestionando que seu papel seria unicamente, ou principalmente, o de mãe. A Barbie chega com a missão de mostrar para as meninas que elas poderiam ser o que quisessem. Uma sacada de uma visionária. Lamento pelas meninas que não se sentiram bonitas por causa de uma Barbie. Lamento também pelas que queriam e não tiveram uma. Lamento demais pela Mattel demorar para criar diferentes biotipos e etnias. Lamento, especialmente, a hipocrisia de se jogar nas costas de uma boneca a responsabilidade de fissuras na autoestima feminina quando sempre existiram elementos graves, inclusive educacionais, que nos diminuíram para caber no lugar que o patriarcado definiu. Um patriarcado tão forte que não se vê análises, acadêmicas ou de botequim, que digam como Falcons, Comandos em Ação e outros brinquedos então voltados aos meninos impactaram a construção da masculinidade.