Ana de Armas é a fusão dos cisnes do balé de Tchaikovski; luz e treva (Paris Filmes/Divulgação) Bailarina – do universo de John Wick – surpreende como uma fusão improvável e incrivelmente bem-sucedida do balé com o sangue, entre a sofisticação do clássico O Lago dos Cisnes, de Piotr Ilitch Tchaikovski, e a visceralidade coreografada da franquia. Com o seu carisma único, Ana de Armas entrega uma protagonista que transita com precisão entre a delicadeza e a fúria, como se Odette e Odile, os cisnes branco e negro da peça russa, tivessem sido reimaginados como uma só mulher: Eve. Sob a direção de Len Wiseman e roteiro de Shay Hatten, o spin-off é o quinto filme da saga e se passa entre os acontecimentos de John Wick 3 - Parabellum (2019) e John Wick 4 - Baba Yaga (2023). A personagem de atriz cubana dança com os pés, mas também com armas, facas e o próprio corpo em sequências de luta. Tomando de empréstimo as feições delicadas e a aparência mignon e frágil de Ana, Eve é a própria dualidade: graça e brutalidade, calma e tempestade. Uma bailarina treinada na dor, moldada pela perda e lançada a um mundo que exige precisão, frieza, mas também sensibilidade. Não é exagero dizer que a personagem condensa a alma do balé russo — à mercê de um destino traçado por forças maiores — enquanto busca na vingança paz de espírito. O roteiro acerta ao incorporar elementos-chaves de o Lago dos Cisnes, como o espelho da dualidade, a figura do mentor sombrio interpretado por Gabriel Byrne, o Chanceler (que ecoa o feiticeiro Rothbart), e a ideia do sacrifício como ponte para a liberdade. Em Bailarina, tudo isso é transposto para um submundo, onde Eve é uma assassina, uma órfã com sede de vingança e uma jovem sonhadora como qualquer outra de sua idade. Apegada à sua caixinha de músicas, enquanto observa a bailarina girar ao som do tema de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovski, Eve se transporta ao seu mundo ideal, onde extravasa sua feminilidade, humanidade e seus sonhos. A metáfora do cisne, com sua imagem de beleza que esconde força, serve como um espelho narrativo para a própria Eve, pois ela dança não para encantar, mas para sobreviver. Visualmente, o filme é uma pintura em movimento. Há cenas que parecem saídas de uma montagem do Balé Bolshoi, outras são pura ação, adrenalina, tiro, pancadaria e bomba. A iluminação trabalha com contrastes de claro e escuro, quase sempre colocando a personagem em ambientes onde sombras e luz se alternam como numa dança contínua. Um charme à parte é a belíssima e gélida locação da vila de Hallstatt, na Áustria. A influência da franquia John Wick é clara — e intencional. Desde o universo codificado, com suas regras próprias, passando pela coreografia de combate impecável até os cenários urbanos noturnos, no melhor estilo neo-noir, o filme assume seu DNA de ação. Porém, Bailarina é menos sobre violência e mais sobre a alma de quem puxa o gatilho. E Ana de Armas entrega esse olhar como poucos: ora distante e letal, ora profundamente humano. Com um timing afiado e cenas de tirar o fôlego, o diretor sabe quando acelerar e quando deixar o silêncio dançar. A tensão dramática entre o instinto e a pureza, entre a mulher e o monstro, ecoa a tragédia de o Lago dos Cisnes, conferindo à trama uma densidade que raramente se vê no gênero. Bailarina é ação com alma, beleza com brutalidade. A presença de Lance Reddick é marcante. O ator, falecido em 2023, retorna ao papel de Charon, o enigmático concierge do Hotel Continental, em sua última aparição. E quanto à John Wick? Keanu Reeves entra em cena em momentos cruciais da trama, como um coadjuvante de luxo, entregando o que os fãs já esperam dele, inclusive uma sequência de luta antológica com Ana de Armas. Vá ao cinema!