[[legacy_image_265161]] Quando chegaram às Antilhas, Cristóvão Colombo e sua comitiva tiveram contato com os nativos e seus alimentos, entre os quais o abacaxi. Na ocasião, falou mais alto a língua pátria de frei Bartolomeu de Las Casas e chamaram a fruta de piña, tamanha semelhança com as pinhas do velho continente. Outrora fruto caríssimo, o abacaxi já representou exotismo, sofisticação e luxo ao ser servido in natura nos banquetes da aristocracia europeia. Tido como o rei das frutas, em Versalhes, França, na horta real, faziam testes para aclimatá-lo e, em 1733, o primeiro abacaxi de estufa foi, então, registrado pelo pintor da corte francesa. Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, nossos antepassados indígenas originais o colhiam ao estender da mão. Segundo Steven Shapin, historiador norte-americano, o abacaxi talvez tenha sido a fruta com o gosto mais exótico; a qual mais influenciou os debates filosóficos do início da modernidade. Para o Iluminismo, período em que as concepções acerca das ciências se expandiam, todo grande fato necessitava ser nomeado e estudado. E com o abacaxi, não seria diferente. Segundo pensavam os antigos, creio que com certa razão, o alimento deveria concordar com o corpo. Dessa herança do mundo greco-romano, nos chegou a frase atribuída a Hipócrates de que “seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”. Posto ao revés, o abacaxi entrou no circuito das ideias, no momento em que se discutia sobre a questão da sensorialidade e as atribuições do gosto, num claro confronto com a concepção de causa e efeito. O tempo passou e, na língua de Las Casas, o fruto ganhou destaque no refrescante coquetel Piña Colada. E mesmo gostando de amolecer as palavras como nós, descascar o abacaxi se tornou expressão corriqueira para os problemas complexos. Valho-me, então, da semântica e descasco ananás, deixo os abacaxis aos desavisados.