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Sexta-feira

3 de Julho de 2020

Pandemia de Covid-19 acelera mudanças no consumo

Tendência a diminuir desperdícios e buscar o essencial ganha vez

A História mostra que mudanças efetivas levam tempo para acontecer. Porém, é fácil lembrar como era 2020 até o Carnaval e o quanto tudo mudou antes que chegassem as festas juninas. As mortes, o comércio fechado, as aulas on-line, o home office, as máscaras no rosto e o álcool em gel nas mãos não deixam esquecer. Mas, depois de tanto tempo saindo, comprando e tendo menos dinheiro para gastar, o consumo será outro? Alguns especialistas apostam que sim. 

“O mundo pós-pandemia será diferente, uma vez que mudanças que o mundo levaria décadas para passar, para implementar voluntariamente, estão sendo implementadas no susto”, afirma Fernanda Iwasaka, analista de conteúdo e metodologias do Instituto Akatu, que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente. 

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Para Fernanda, a Covid-19 é uma aceleradora de futuros, antecipando mudanças em curso, como trabalho remoto, EaD, busca por sustentabilidade e cobrança por empresas mais responsáveis socioambientalmente. 

“Além da alta velocidade das mudanças, alterações em comportamentos de consumo causadas pela pandemia provavelmente serão permanentes e acarretarão mudanças estruturais nos setores de bens de consumo e varejo”, analisa. 

Menos é mais 

A crise financeira vai pressionar as pessoas para que gastem menos e é neste momento que é importante rever a própria forma de consumir. Agora e depois da Covid. “Consumir por consumir saiu de moda”, decreta Fernanda. 

Segundo ela, alguns estudiosos estão prevendo um cenário mais resiliente e sustentável. Na China, onde alguns comércios foram reabertos, os efeitos pós Covid-19 mostram um consumidor mais cauteloso, pensando mais antes de comprar algo não essencial. 

Mudar a chave 

Para o economista Julio César Pereira, este é um momento importante para o cidadão “mudar a chave” e adotar hábitos que preservem a saúde financeira. “A gente sempre fala muito da necessidade de poupar e muita gente acredita ser impossível. Mas a pandemia vem mostrado que é possível limitar alguns gastos e fazer alguns cortes”. 

Ele lembra, claro, que muitas pessoas estão sendo obrigadas a realizar esses cortes, seja por conta do desemprego ou por redução de salários. Mas muitas outras também descobriram que gastavam sem necessidade. 

“As pessoas estão percebendo melhor o que é essencial e o que é supérfluo. E isso é muito importante na hora de organizar as finanças”. Não é que não se pode gastar com uma roupa ou uma comida que se tem vontade, mas é preciso ter controle e critério, orienta Pereira. 

Moda é termômetro de mudanças

Aos mais desavisados pode parecer estranho, mas a moda é um termômetro importante de mudanças sociais. Marília Carvalhinha, consultora de negócios e coordenadora da pós-graduação da FAAP em Negócios e Varejo de Moda, afirma que ainda estamos no meio de uma onda, fica difícil avaliar exatamente o que vai acontecer, mas mudanças estão por vir. 

“A moda é afetada pelas crises. Na 2ª Guerra Mundial, por exemplo, as mulheres tiveram que ir para o mercado de trabalho, então passaram a utilizar roupas mais práticas e até masculinas. Os países tiveram que se isolar e a produção local foi muito valorizada”. 

Depois de tanto tempo em casa, é muito provável que as pessoas prezem pelo conforto e permaneçam olhando mais “para dentro”. “Estamos mais em casa observando nossos objetos, roupas, móveis e avaliando melhor o que não é muito significativo”. 

Por isso, Marília acredita que esse possa ser um movimento que ganhará força no pós-pandemia. “Já temos a visão de que a moda não consegue ser 100% sustentável. Então é importante que a gente aja de uma forma sustentável na hora de consumir”, diz. 

Para a professora de História da Moda do curso de Têxtil e Moda da Fatec de Americana, Maria Alice Ximenes, o slow fashion já era uma macrotendência que estava se expandindo devido ao movimento de sustentabilidade e valorização do artesanal. 

O momento trouxe através do confinamento espaço para os pequenos produtores se desenvolverem e ampliarem seus negócios através do comércio on-line e do marketing de conteúdo. “Percebo que há quem ainda não entrou no ritmo deste momento, mas há quem só precisava de uma situação como esta para deslanchar seu próprio negócio”. 

Porém, mais do que na produção, é possível ser sustentável no uso. Segundo ela, o consumidor pode, e deve, avaliar melhor se precisa comprar, diminuindo a velocidade de descarte e até adotando ações como o compartilhamento de guarda-roupas. 
“O tempo que passávamos no trânsito, hoje estamos olhando no espelho, de forma ampla, e estamos nos reciclando”, considera Marília. 

Economia local fortalecida

Escolhas conscientes ajudam a diminuir as diferenças sociais, diz Fernanda Iwasaka. Optar por produtos produzidos localmente, por exemplo, incentiva produtores e comerciantes de pequeno e médio portes, contribuindo com a economia local, geração de novos empregos e, consequentemente, geração de renda.

“Tratando do impacto ambiental, o atual modelo de consumo em que estamos inseridos apresenta consequências preocupantes. Atualmente, consumimos 75% mais recursos do que a Terra é capaz de regenerar em um ano. Os resultados da demanda por recursos implicam em aumento da extração e consequente escassez, aumento de preços e volatilidade, perda da biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, degradação do solo, poluição hídrica e poluição atmosférica”, enumera.

Agravando-se

Assim, os impactos estão se agravando a cada dia, pois, para atender as demandas da produção, é necessário extrair mais matérias primas da natureza, gerar energia e utilizar terras. “Assim, o consumo consciente resulta num menor impacto”. 

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