Mãos ao volante e cabeça no lugar

Determinadas condutas podem ser explicadas pelo lado psicológico: cuidar de quem faz parte do trânsito torna-se algo primordial

Além de cuidar de elementos como fiscalização, orientação e instrução dos motoristas, pedestres e outros atores da cena do trânsito, tentar entender o motivo de determinados padrões de comportamento também faz parte do processo. A Psicologia do Trânsito chega neste contexto, para ajudar a decifrar os medos, Angústias, motivações e outras características mentais e psíquicas que fazem alguém acelerar diante de um sinal fechado ou ignorar um pedestre que atravessa a rua. 

E justamente o que move a psicóloga do trânsito Bianca Cruz, integrante da Junta Administrativa de Recursos de Infração do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e Consultora da Federação Nacional das Associações de Detran (Fenasdetran). O encontro com o tema se deu no finalzinho da graduação em Psicologia, quando por meio de um seminário pude saber que a área existia e qual era a sua finalidade.

“Sempre gostei muito do fenômeno trânsito e encontrei na Psicologia do Trânsito a oportunidade de contribuir para que o fenômeno se torne mais reconhecido positivamente, levando em consideração os pressupostos para alcançar a segurança viária e melhor qualidade de vida dos seus partícipes”, explica.

A profissional observa, mesmo respeitando as características de cada pessoa, um grau de impaciência e intolerância crescentes, sobretudo em meio ao trânsito. “Para alguns, o deslocamento é visto como perda de tempo, como desgastante, uma vez que o modelo capitalista exige um nível elevado de produtividade, que é reforçado pela cultura que os desejos e direitos individuais devem prevalecer. Daí se esquece que o trânsito é um espaço coletivo e que todos precisam ter as suas demandas atendidas, por esse motivo compartilhamos deveres”, afirma Bianca, que acrescenta outras variáveis, como ambiente em que estão inseridos, valores, crenças, referências de respeito às regras.

Carência psicológica

Ela defende que existe uma carência nos cuidados com o psicológico dos atores do trânsito. “O que temos atualmente assegurado por lei, é a avaliação para o condutor. O candidato à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) passa por um processo com entrevistas e testes psicológicos para demonstrar a sua aptidão para a condução. Quando uma avaliação psicológica é bem realizada, é possível salvar vidas, evitando que o candidato inapto para a condução possa oferecer perigo a si e aos outros. Ainda na avaliação pode ser identificada a necessidade de acompanhamento psicoterapêutico para determinado sujeito e ofertada a devida orientação e o mais adequado encaminhamento. Existem as atividades desempenhadas por psicólogos em algumas empresas de transporte, visando cuidar da saúde mental dos motoristas”.

Bianca reforça que o olhar deve ser estendido. “Pedestres, passageiros, ciclistas, que são “negligenciados” nesse cenário. Além dos agentes de trânsito que também são carentes de uma atenção especial no cuidado apontado. As pesquisas científicas contemplam o público, mas, ainda faltam ações eficazes e efetivas”. 

A psicóloga do trânsito acredita que o ímpeto da juventude, em comparação com os condutores de mais idade, pode acabar sendo prejudicial, levando a flertar com a imprudência. “Sim, em regra, os jovens são mais impulsivos, principalmente quando recebem a Carteira Nacional de Habilitação, que desejam demonstrar a sua habilidade na condução, bem como registrar o ritual de passagem para a vida adulta. A prova disso pode ser observada na discrepância de valor dos contratos de seguros para veículos entre os grupos supracitados. A formação e experiência vão proporcionando maior cuidado e percepção de risco”, reforça Bianca.

Estresse alto faz aumentar os riscos

O tráfego intenso, os congestionamentos, fechadas e demais situações comuns a quem dirige ou conduz uma moto ajudam a alimentar um caldeirão sempre prestes a explodir. Para a psicóloga do trânsito, Bianca Cruz, o estresse alto é, em grande parte, responsável por condutas prejudiciais – para todos - ao volante ou a bordo de uma moto.

“Há um peso considerável, em decorrência da agitação, do engarrafamento, da distância entre os locais... Todas essas variáveis acabam interferindo no acontecimento de “acidentes”. Utilizo aspas, pois preferimos chamar de ocorrências e/ou eventos de trânsito, com a justificativa que eles não são fortuitos, poderiam ser evitados. 

Precisamos mudar essa realidade já, é inaceitável que 1,35 milhão de pessoas morram no mundo por ano. Para tal, precisamos da colaboração e engajamento de todos”.

É nesse contexto que ela acredita que a psicologia do trânsito deve ser o mais abrangente possível, indo além do momento em que se forma um novo condutor. “A Psicologia do Trânsito entra no processo de Avaliação Psicológica do condutor que é candidato à primeira habilitação, adição ou alteração de categoria, assim como em relação à renovação da habilitação. O que é insuficiente. As pessoas passam por diversas situações em suas vidas que podem alterar o seu estado psíquico. Defendemos que o processo de avaliação psicológica seja concretizado em todas as renovações. Também seria excelente se houvesse uma atuação fora desse contexto avaliativo”, frisa.

Praticando a acolhida

Bianca Cruz reconhece que a pressão sobre os motociclistas, em especial os motofretistas, influi nas suas decisões no trânsito. “Apesar da tentativa de disciplinar a jornada e condições de trabalho das pessoas que labutam com os diversos modais, infelizmente, ainda existe uma prevalência pela valorização da rentabilidade em detrimento da saúde e bem-estar dos profissionais. A fiscalização dessas leis precisa ser mais constante e assertiva”.

Ela lembra do trabalho desenvolvido pela Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT), denominado Projeto Rotas da Saúde, para os caminhoneiros nesse período de pandemia, em que o trabalho se configurava como essencial, porém, havia precariedade e os demais impactos oriundos dela. O projeto consistia em ofertar escuta e acolhimento psicológico por um número de WhatsApp para proporcionar bem-estar para o público, contribuindo para a prevenção do adoecimento.

“Nós formamos o trânsito. O modelo que idealizamos depende de nossas ações. Lutamos em defesa da segurança e da vida, e acreditamos que é possível salvar vidas e ofertar maior qualidade para elas”, finaliza a psicóloga.

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