Mãe adotiva de Érika, irmã de Gloria, relata sofrimento da filha

A meia-irmã da jovem que fugiu de casa foi afastada da família de Joselito Rocha após processo por maus-tratos

Érika foi encaminhada para adoção após sofrer maus-tratos (Foto: Carlos Nogueira/A Tribuna)

Maria Pilar Carballo Caamano, 58 anos, não esquece o dia que teve seus planos mudados por uma menina fechada, embora dona de um sorriso radiante e dócil. Mal sabia ela que a tentativa da garota em esconder a cicatriz na mão esquerda era autodefesa contra profundas marcas que abalaram o seu psicológico ainda em formação. “A vida dela começou quase aos 10 anos, quando finalmente conseguimos adotá-la. Antes, ela apenas sofreu muito”.

A garota em questão é Érika Cristina Carballo, que, 17 anos depois de ter sufocado as dores infantis, precisou enfrentar o autor de seus mais secretos traumas: o escritor Joselito Oliveira Rocha, de 40 anos. 

Ela é irmã por parte de mãe de Gloria Maria de Souza Rocha, de 17 anos, que fugiu de casa para escapar da rotina de torturas e agressões, também atribuídas a ele. O caso é apurado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG).

Com apenas 6 anos de idade, Érika foi encaminhada à adoção após a mãe biológica, Maria José de Souza Franklin, perder sua guarda. Processo que, segundo Érika, revelou a natureza agressiva e perturbadora de Joselito. Ela conta que voltava para casa com algumas balas e foi reprimida por seu padrasto. Como castigo, ele queimou a sua mão esquerda com um ferro de passar roupas. 

Por três meses, a menina ficou internada e com risco de perder os movimentos da mão. De lá, foi encaminhada à Casa da Criança, onde aguardou por novo lar. Por essa agressão, Joselito foi condenado a quatro anos de prisão, pena que nunca cumpriu dado aos vários recursos apresentados até a prescrição do crime. “Como uma ação dessa gravidade não foi para frente?”, indaga Maria Pilar.

Glória depôs da Delegacia da Mulher acompanhada por sua meia-irmã, Érika (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Caminho cruzado

A história de Érika faria aumentar a família de Maria Pilar, que era mãe adotiva de um menino e biológica de outro. “Com meu marido, já falecido, viemos morar em Mongaguá. Fui comprar um eletrodoméstico e comentamos com o dono da loja a nossa história. Ele disse contribuir com a Casa da Criança, e nos convidou a visitar o local”, recorda.

Logo no primeiro encontro, Maria Pilar se encantou com uma menina de olhar intenso e sorriso largo. “A gente se afeiçoou a ela. Começamos a visitar com frequência e participamos do programa de apadrinhamento. Assim, Érika passava os finais de semana e feriados com a gente”. 

Aos poucos, a nova família foi tomando ciência da história da menina, ora contada por ela, ora por responsáveis do abrigamento. “Ouvíamos relatos impressionantes de todo o sofrimento dela e dos maus-tratos que era submetida. Até hoje ela tem marcas no corpo, como ferimentos na cabeça porque ele (Joselito) batia com a ponta da caneta na cabeça dela”.

Maria Pilar recorda que foi fácil a adaptação na nova casa. “Desde pequena, Érika era muito bem resolvida e dócil no trato com as pessoas”. O trauma vivido foi amenizado com acompanhamento psicológico, médico e do conselho tutelar. 

Mesmo assim, a menina mostrava-se incomodada com a cicatriz, algo que ainda hoje a machuca. “Ela era canhota. Pelo que passou, aprendeu a escrever com a mão direita, até para esconder a marca”.

Joselito

Após a adoção, Érika teve apenas um único contato visual com Joselito. Foi nos corredores do fórum, durante audiência no processo de agressão movido contra o padrasto. 

“Tamanho era o trauma, que a Érika apenas reconheceu ele e não a mãe. Joselito sempre se mostrou perverso e inteligente, mas apenas para cometer maldades”, afirma. [[saiba_mais]]

Curiosa sobre a convivência com a antiga família, Maria Pilar perguntava à menina as razões da violência. “Ela nunca soube o motivo. Dizia que ele a batia por qualquer coisa, menor que fosse”. E nem mesmo a mãe biológica estaria imune às agressões. 

“Érika me dizia que ele a agredia (Maria José) com chutes e socos”. Esses traumas afastaram a menina de sua mãe biológica, por entender o caráter omisso de Maria José. “Ficamos todo esse tempo no anonimato porque tínhamos muito medo dele cumprir as promessas de matar a Érika”.

O temor foi superado há cerca de 10 dias, quando uma pessoa a procurou via redes sociais. Ele se apresentou como um amigo de sua irmã biológica e pediu ajuda para “salvar” a garota. “No começo, achei a história estranha. Jamais imaginei que ela estava sofrendo tanto quanto Érika sofreu. Hoje, tenho orgulho dela por enfrentar seus medos e resgatar a irmã”.

A versão dele

Em entrevista para A Tribuna, o padrasto Joselito Oliveira Rocha negou as acusações de agressão e contou a sua versão do episódio que gerou a perda da guarda de Érika. Segundo ele, a enteada havia furtado produtos de um comércio. “Fui dar uma correção. Falei alto, mas não dei um tapa. Encostei a mão com uma certa intensidade no rosto e ela desequilibrou. 

O ferro estava lá, em pé, no chão, onde ela se apoiou. Eu tinha 20 anos, não era formado, não tinha experiência de vida e fui educado por um pai severo na roça (em Campina Grande, na Paraíba)”. 

Ele diz, ainda, que nunca agrediu Érika, apenas a ensinou a não furtar, pois, segundo ele, ela já tinha histórico de pegar o material de colegas da escola. 

“Eu fui condenado a quatro anos, mas nunca fui preso. Prescreveu. Tinha o laudo médico e a palavra de uma garota de 8 anos, mas nenhuma testemunha, nem mesmo a empregada que passava a roupa”. 

Tudo sobre: