Renato fala sobre manutenção do elenco Santos, contratação de treinador e nova fase na carreira

Dirigente falou sobre os assuntos que movimentam bastidores do Peixe em entrevista exclusiva

Um dos principais ídolos da história recente do Santos, Renato, de 39 anos, pendurou as chuteiras no último domingo (2), com o fim do Campeonato Brasileiro. Desde então, trabalha em uma sala no CT Rei Pelé exercendo a função de executivo de futebol. A missão é cuidar do planejamento da equipe profissional para 2019. E o começo já exige habilidade. Afinal, o time se encontra sem treinador, perdendo jogadores e atrás dos concorrentes na busca por reforços. Em entrevista exclusiva para A Tribuna On Line, Renato fala sobre o desafio, negociações, inspirações no cargo e o que o torcedor pode esperar dele na função.

Você é ídolo da torcida. Não teme ver essa condição ser arranhada por assumir um cargo de diretor, como já acontece com o Raí, no São Paulo?
Acho que não. Quando encerrei a minha carreira, o que eu fiz dentro de campo acabou. A minha história com o Santos, como jogador, não tem nada a ver com o que vou fazer daqui para frente. Se vou ter sucesso (como dirigente), vai depender dos resultados. E esses resultados não chegarão por meio dos meus pés. Eu não vou poder fazer um gol de cabeça, acertar um lançamento. A mesma coisa acontece com o Raí no São Paulo. A história dele em campo é vitoriosa e ninguém vai arranhar. É preciso diferenciar as coisas.

Quando fala que o seu sucesso como dirigente vai depender de resultados, você se refere a conquistas do time ou contratações de bons jogadores?
De conquistas, vitórias. Eu posso chegar e contratar vários jogadores. Mas e o clube, como fica? Não quero sair daqui com as pessoas falando que o Renato gastou 15 para contratar, sendo que a gente recebe 10. Isso pode arruinar o clube no futuro. Não é isso que quero. Penso e vou seguir uma linha de orçamento. Somos o quarto time em orçamento do Estado de São Paulo e vamos trabalhar em cima disso. Sem loucuras.

Você está iniciando essa nova fase num momento difícil do clube, sem treinador e perdendo jogadores. Não seria mais fácil começar com o Santos num momento melhor?
Seria. Mas antes de aceitar o convite (para ser diretor) conversei bastante com a minha família, amigos, sobre tudo que o Santos está passando. E, junto deles, resolvi encarar o desafio. Quando cheguei em 2000, como jogador, também não era uma situação fácil. Tínhamos a necessidade de ganhar um título e só fomos tirar o time da fila em 2002. Na nossa vida temos os desafios. Se fosse mais fácil, é provável que não viéssemos a dar o devido valor. O momento não é bom. Poderíamos estar na Libertadores, por exemplo. Mas agora é tentar fazer o melhor, sem pensar nas dificuldades.

Renato trocou a vida de jogador pela de diregente no último dia 2 (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

O presidente do Santos, José Carlos Peres, é visto por pessoas próximas como centralizador. O que fazer para não se desgastar com ele?
Conversar e olhar nos olhos dele. Explicar algumas coisas. Acabei de me aposentar. Então, sei como os jogadores se sentem, sei como é o tal vestiário. Diante disso, vou procurar conversar essas coisas com ele. Claro, sem confrontar. Ele é o presidente, é ele quem manda. Vou dar as minhas opiniões e ele é quem vai decidir.

A saída do Cuca, de alguma forma, aumenta a sua responsabilidade no cargo, uma vez que a sua indicação partiu dele?
A gente queria que o Cuca continuasse, mas teve esse problema de saúde e temos que respeitar. Em primeiro lugar está o ser humano. Não dava para pedirmos para ficar e depois depararmos com uma fatalidade. Mas a saída dele aumenta, sim, a minha a responsabilidade. Bola para frente. Temos que resolver a questão do treinador o quanto antes e iniciar o planejamento de 2019.

O quanto essa demora para anunciar o treinador pode ser prejudicial ao planejamento de 2019?
Temos alguns contatos com jogadores, mas não podemos fechar porque precisamos do aval do treinador. Não podemos montar um elenco sem um treinador falar o que pensa sobre os atletas ou passar os nomes com os quais quer trabalhar. A gente está olhando por fora, mexendo algumas coisinhas, mas não podemos finalizar. A não ser o caso do Dodô, que a gente já vem conversando e temos a prioridade de compra. Se tiver propostas para algum dos nossos jogadores, vamos analisar também. Mas queremos resolver a questão do treinador o quanto antes. Queremos ter tudo pronto para o dia 2, quando o elenco se reapresenta.

Sem o treinador, não haverá anúncios de reforços?
Só se for algo excepcional de mercado.

Novo diriegente do Peixe queria Cuca no comando, mas entende situação (Foto: Nirley Sena/AT)

Como estão as negociações com Dodô?
O impasse está na base do salário. Tive uma reunião com o presidente e ele quer ver o desejo do jogador. Temos um teto salarial para ser respeitado e não vamos fazer loucuras. Se recebemos 10, vamos gastar 10. Não queremos fazer o nosso mês ter 60 dias. Este ano pagamos tudo em dia, e em 2019 queremos fazer o mesmo.

E com Diego Pituca?
Tivemos uma conversa lá atrás e acredito que em breve já esteja tudo resolvido. Temos tudo certo com o jogador. Tudo encaminhado. O empresário pediu para esperar. Ele (Pituca) quer ficar. Nós vamos dar a ele um salário de acordo com o que está mostrando em campo.

Nesta semana surgiu uma pendência financeira com a Ponte Preta por conta da contratação do Felippe Cardoso. Essa dívida será paga com jogadores? 
Não posso cravar que vamos usar jogadores para resolver isso, porque preciso entender o que o futuro treinador vai querer e com quais jogadores irá querer contar. Mas, caso a Ponte Preta se interesse por algum dos nossos atletas, poderemos, sim, resolver isso envolvendo jogadores.

O Bruno Henrique é um atleta cobiçado no mercado. Ele pode ser uma boa moeda para encarar as dificuldades financeiras? 

Precisaremos conversar. O Bruno Henrique é importante para nós também. Não foi bem nesta temporada, mas ficou muito tempo parado por conta de lesões e perdeu ritmo. Assim como o presidente disse, ninguém no Santos é inegociável. Então, se surgir algo bom, pode ser que negociemos. Seja o Bruno Henrique ou outro jogador. Tudo, é claro, diante de uma proposta irrecusável.

Atleta é alvo do Cruzeiro neste final de temporada (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

 

Em recente reunião do Conselho Deliberativo, o presidente disse que o ano de 2019 será financeiramente difícil. Quantos jogadores o clube precisará negociar nesse começo de ano?
Normalmente são dois jogadores para fechar o ano bem. O Rodrygo vai embora em junho e vamos receber a metade do valor (20 milhões de euros). Além desse valor, creio que seja necessário negociar mais um jogador em 2019.

Assim como em 2002, as categorias de base serão a origem dos principais reforços para 2019 ou o torcedor pode esperar alguma grande contratação?
A base vai estar junto com o profissional. Vamos usá-la. Não vamos abrir mão disso. Mas é preciso entender que em 2002 o time deu liga. Lá, tínhamos um pilar montado no ano anterior com Fábio Costa, Léo, eu, Paulo Almeida, André Luis, Robert e o Alberto, que era experiente e chegou para ajudar. Aí vieram os meninos Robinho, Diego... Nós vamos dar oportunidade para os meninos da base e esperamos que eles cresçam.

Você conversou com Diego e Robinho? Quais as chances de retorno da dupla?
Converso quase todos os dias. Eles estão no grupo de WhatsApp do elenco de 2002 (risos). Mas não falamos de negociações. Por enquanto, não teve nada. Trazê-los para janeiro é difícil. Se o treinador que vier pedir, vamos tentar. Mas é difícil.

Você tem uma viagem marcada com a família para a Espanha no dia 18. Essa viagem não irá atrapalhar ainda mais o planejamento do Santos? 
Não. Hoje tudo se resolve pelo telefone e qualquer coisa que o Santos precise, vou estar em contato. Quando voltei do Sevilla (Espanha) para o Botafogo, foi por telefone. Resolvi tudo com um dirigente por telefone. Então, a viagem não vai atrapalhar em nada. Já estava marcada e na época eu não sabia que ia virar diretor. Além disso, lá vou tentar conversar com o (Ramón Rodríguez Verdejo) Monchi, que é diretor de futebol da Roma (Itália) e foi meu diretor no Sevilla. Quero pegar um pouco da experiência dele.


Ramón Rodríguez Verdejo, dirigente no qual Renato se referiu (Foto: Getty Images/NurPhoto)

Ele é o dirigente de futebol em que você mais se inspira?
Sim. Gosto muito do estilo dele. Ele conseguiu fazer um time de meio de tabela, como é o Sevilla, ser campeão seis vezes em três anos, sendo que duas conquistas aconteceram diante de Real Madrid e Barcelona, e outras duas foi o bicampeonato da Liga Europa. O Sevilla não é da grandeza do Santos. Então, quero conversar com ele, pois é um profissional que respeito muito. Ele não tinha recursos financeiros e mudou o patamar do Sevilla.

Dependendo do que estiver acontecendo no mercado do futebol e do momento do Santos, você cogita cancelar a viagem?
Não! Vou passar Natal e Ano Novo fora apenas. Volto no dia 2, junto com o restante do elenco.

O que o torcedor pode esperar do Renato como executivo de futebol? 
Vou procurar fazer o melhor possível para acertar na montagem do elenco e assim criar um time competitivo em todas as competições. O Santos, quando entra em um campeonato, é para vencer. Sempre falam que não acreditam no Santos, que não somos favoritos, e é aí que surpreendemos. Vamos montar uma equipe para brigar por títulos.

Você é sócio do Santos. Pensa, no futuro, dependendo do que venha a acontecer como dirigente, em ser presidente do clube?
(Risos) Ser diretor não era algo que passava pela minha cabeça. Eu queria fazer parte da comissão técnica permanente do Santos. Queria permanecer ligado ao clube, deixando claro que não estava pedindo emprego para o Santos. Isso só viria a acontecer se o Santos quisesse. Essa questão de ser presidente é algo que nem passou pela minha cabeça ainda. Mas não sabemos o dia de amanhã. O que eu não quero, e posso te afirmar, é ser treinador. 

Ex-jogador não se imaginava na função de dirigente do Santos (Foto: Nirley Sena/AT)
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