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Quinta-feira

6 de Agosto de 2020

Garotas brasileiras avançam em seletiva para virar piloto na Academia Ferrari

Agora, as meninas vão passar por uma bateria de testes contra outras 18 adversárias

Duas garotas brasileiras embarcam em outubro para a França para disputar uma concorrida vaga na Academia Ferrari, o projeto de desenvolvimento de talentos da escuderia mais tradicional da Fórmula 1. Após superarem 50 concorrentes em um processo seletivo internacional, a paulistana Júlia Ayoub, de 15 anos, e a catarinense Antonella Balsani, de 14, vão passar por uma bateria de testes contra outras 18 adversárias. Quem se destacar, assina contrato com a equipe para correr no próximo ano pela Fórmula 4.

As brasileiras fazem parte de um projeto da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) cujo objetivo é aumentar a participação feminina no esporte a motor. Para isso, a entidade sediada em Paris recebeu 70 currículos de garotas de 12 a 16 anos de todo o mundo e escolheu 20 finalistas para a etapa final, em outubro. Depois de várias corridas, desafios físicos, testes mentais e até atividades de relação com a imprensa, só uma garota vai entrar para o mesmo projeto da Ferrari que já revelou, por exemplo, o monegasco Charles Leclerc.

O plano da FIA é conseguir nos próximos anos ter uma mulher no grid da Fórmula 1. Por isso, o projeto é investir na base do esporte. A última participação feminina em corridas foi ainda em 1976, com a italiana Lella Lombardi. Como a própria categoria divulgou recentemente um plano para aumentar a inclusão e a diversidade, as duas garotas brasileiras estão animadas por perceberem que a resistência à participação de mulheres pouco a pouco tem diminuído.

"Ainda tem um preconceito no automobilismo, mas agora com essas oportunidades e com mais mulheres aparecendo, nós estávamos cada vez mais impondo respeito. Só por disputar esse projeto da Ferrari estou muito feliz", contou Júlia. A campeã do Troféu Ayrton Senna de Kart deste ano e única brasileira no Mundial do ano passado começou no automobilismo há cinco anos, após ver um treino do irmão na pista. O curioso é que a própria família dela era resistente à ideia.

Os pais de Júlia preferiam ver a filha em uma atividade bem diferente. "Antes eu fazia balé, mas depois que comecei a me interessar pelo kart, não pensei em outra coisa. Meus pais no começo falavam que kart não era coisa de mulher porque é muito barulhento e tem muita sujeira", afirmou. Para focar na carreira de piloto, a garota desde o ano passado cursa escola à distância, treina na pista até três vezes por semana e também se dedica a treinos físicos na academia.

O caminho de Júlia e de Antonella pelo automobilismo consistiu em presenciar desde cedo alguns episódios de preconceito. Como não há divisão por gênero nesse esporte, desde os primeiros anos do kart as atuais candidatas à vaga na Ferrari disputaram as corridas contra meninos. "Dá para perceber que alguns têm maldade por eu ser menina e queriam me dar uns toques durante a corrida para me tirar da pista", contou Júlia.

Antonella chegou a presenciar até mesmo uma mobilização dos concorrentes. "Já vi muita pilotos combinarem e até fazerem uma 'vaquinha' para bater em mim e me tirar da corrida. Eu nunca liguei para isso e continuei competindo. Se as pessoas criticam, é porque eu ando bem. Se eu fosse ruim, não teria esse tipo de comentário", afirmou a catarinense. No currículo, ela tem o vice do Sul-Americano de kart e o 3º lugar no Brasileiro.

Nascida em Concórdia, a piloto de 14 anos começou no kart aos quatro, incentivada pelo pai. Antonella costuma treinar na pista nos fins de semana e durante os outros dias concilia a escola com exercício físicos e curso intensivo de inglês, idioma essencial no meio do automobilismo. A convocação para participar da fase final da seletiva da FIA faz a garota relembrar um momento difícil que precisou superar na carreira.

Em 2013, Antonella sofreu um grave acidente durante uma prova em Tarumã (RS). A capotagem com o kart a deixou com uma grave lesão no pulmão e um delicado estado de saúde após seguidas paradas cardíacas no hospital. Foi preciso ficar um ano sem pilotar até a recuperação completa. Apesar do processo difícil, a piloto relembra esse capítulo com a naturalidade de quem sabe desde cedo o quanto o automobilismo inclui também enfrentar riscos.

"Correr faz você desde criança aprender a lidar com pressão, com a adrenalina, com o psicológico e a se virar sozinha", afirmou. Desde que teve a classificação confirmada no processo seletivo, Antonella se tornou ainda mais conhecida na cidade natal. Dias atrás, pouco antes de atender a ligação do Estadão, ela participava de um programa em uma rádio local. "Todo piloto sonha com a Ferrari. Toda a minha família ficou impactada com essa notícia. Eu moro em uma cidade pequena e ainda assim fui escolhida. Na vida tudo é possível", disse.

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