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Terça-feira

22 de Janeiro de 2019

Roberto Debski

Roberto Debski mora em Santos, é médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e psicólogo formado pela Universidade Católica de Santos. É especialista em acupuntura e homeopatia pela Associação Médica Brasileira, pós graduado em Atenção Primária à Saúde e tem diversas formações em Práticas Integrativas e Complementares, Meditação, Constelações Familiares Sistêmicas, EMDR e Coaching. Com foco na saúde física, mental e Qualidade de Vida, estimula a mudança no comportamento, no estilo de vida e na consciência, a fim de melhorar os resultados dos tratamentos clínicos, dos relacionamentos interpessoais e do bem estar.

Quem ajuda os outros ajuda a si próprio

Voluntariado é só aquele que dedicamos tempo a alguma coisa ou causa? Existem outras formas de ser voluntário? Qual?

O voluntariado é só aquele que dedicamos tempo a alguma coisa ou causa? Existem outras formas de ser voluntário? Qual? 

Quando trabalhamos para os outros, por nossa vontade, se trata de um trabalho voluntário - uma relação humana que envolve compaixão, doação e solidariedade. É indicada para qualquer pessoa, em qualquer cargo e posição. Favorece a todos que a praticam e seus efeitos benéficos vão para muito além de si próprias.

Quando um executivo ou diretor de uma empresa, por exemplo, se engaja em uma atividade voluntária, além do bem que faz para si mesmo, contamina positivamente sua equipe e toda a empresa - através do modelo e com uma liderança pelo exemplo. Pela influência que exerce, pode captar outras pessoas para o voluntariado e sua ação amplia-se exponencialmente.

Muitos estudiosos dizem que vivemos em uma sociedade cada vez mais narcisista, no entanto, o  IBGE divulgou que o trabalho voluntário vem crescendo nos últimos anos. Apesar do egoismo e narcisismo de muitos, o que inclusive é mais noticiado, há muitas pessoas com espírito e atitudes voluntárias e essas fazem realmente a diferença. 

Segundo ainda o IBGE, a maioria dos voluntários são mulheres e geralmente fazem mais de um trabalho. Há diversas razões possíveis como resposta. As mulheres normalmente abrem mão de muitas coisas quando engravidam e já tem o hábito de ter atitudes voluntárias em relação aos filhos e para a família, sendo assim é natural que se engajem mais em atividades voluntárias, embora isso não seja uma regra.

Princesas Caiçaras levam alegria a instituições carentes e hospitais da Baixada Santista de forma voluntária (Foto: Divulgação / Princesas Caiçaras)

Todos nós temos necessidades básicas que devem ser preenchidas para que nos sintamos bem. Cada pessoa se encontra em um nível de consciência, dependendo do seu momento de vida, prioridades e escolhas que fez e assumiu durante sua trajetória.

Segundo o psicólogo humanista Abraham Maslow, há categorias de necessidades que se dispõe hierarquicamente, como em uma pirâmide, e que se dividem em cinco etapas. Quando contempladas as necessidades de cada nível hierárquico, podemos nos preocupar e lidar com as seguintes, sucessivamente.

As cinco iniciam com as necessidades fisiológicas básicas, como alimentação, sono, abrigo, excreção e sexualidade. A seguir vêm as necessidades de segurança e estabilidade, segurança contra violência, proteção, recursos. Para exemplificar como isso se dá, se uma pessoa tem prioridades como fome e sede (1º nível), por vezes arrisca sua segurança (2º nível) para aplicá-las. Sempre tendemos a priorizar as necessidades mais básicas primeiro, por vezes colocando em risco as superiores. 

No terceiro nível vem as necessidades sociais, como amizades, relacionamentos interpessoais, intimidade e aceitação. A seguir as necessidades de status e estima, como reconhecimento, respeito, autoconfiança, e por último as necessidades de autorealização como a criatividade, espontaneidade, o autodesenvolvimento e sensação de cumprimento da missão pessoal. É neste nível da Autorealização que é contemplada a atividade voluntária.

O ideal é que todos pudessem trabalhar em uma função que utilizasse seus dons pessoais, seu talento inato, aquele com o qual nascemos e sentimos que precisamos desenvolver, mas isto não é a realidade para um grande número de pessoas. Muitas delas trabalham em atividades que não gostam ou somente toleram, o gera uma alta carga de estresse e pode levar ao adoecimento.

A atividade voluntária proporciona, dentre os seus diversos benefícios uma oportunidade para as pessoas usarem seus dons, talentos e inspiração para ajudar outras pessoas e entidades necessitadas, enquanto contempla os aspectos de sua própria autorealização. Quando damos algo de nós mesmos para quem necessita nos sentimos úteis, contribuindo e ajudando quem tem urgências maiores do que as nossas.

Ao atuar voluntariamente podemos testemunhar problemas de outros, o que nos faz ressignificar e redimensionar as nossas próprias questões. Assim, conseguimos sair de nós mesmos e ampliar a visão de mundo e da vida, para muito além do pequeno círculo de nossa família e das nossas próprias questões pessoais. Além disso, o trabalho voluntário faz muito bem para nossa saúde, de acordo com diversas pesquisas e trabalhos já publicados em vários periódicos científicos. 

Uma revisão coordenada pela Escola de Medicina da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e publicada na revista BMC Public Health mostrou que os voluntários podem viver mais tempo, com uma mortalidade 20% menor comparada aos não voluntários, além de sofrerem menos de depressão, e alcançarem maior bem estar e satisfação.

Outro estudo, da Universidade de Michigan nos Estados Unidos mostrou que os voluntários vivem em média quatro anos a mais, com maior qualidade de vida, já que a satisfação de ajudar reduz o estresse e libera neurotransmissores como as endorfinas que se traduzem em um grande bem estar e sensação de prazer. 

O voluntário se beneficia de diversas maneiras com sua atividade. Aumenta a sensação de prazer e satisfação, melhora o estresse e a ansiedade, sente-se útil e valorizado, aumenta sua rede de relacionamentos, amplia o olhar sistêmico da vida, enxerga diferentes realidades, supera suas dificuldades, amplia a resiliência, utiliza seus dons e talentos, contempla a necessidade humana de conexão e serviço ao próximo, sai de uma atitude egoísta para uma altruísta, aumenta a pró-atividade, aprende a trabalhar em equipe, favorece a flexibilidade, emprega diversos meios para proporcionar bem estar e contemplar necessidades de outras pessoas, adquire experiência, doa sem expectativa de retribuição, além de inúmeras outras. Isso reflete positivamente também no físico com resposta de relaxamento e melhora da imunidade e do bem estar.

O final do ano é uma época em que a maioria das pessoas extrai o melhor de seus sentimentos, e ser voluntário é um ato de doação e bem ao próximo, característico da compaixão desencadeada com os sentimentos do Natal e Ano Novo. 

Que todos mantenhamos o espírito voluntário e doador durante todo o ano!

Roberto Debski