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Terça-feira

19 de Março de 2019

José Luiz Tahan

Livreiro da Realejo, editor, ilustrador e idealizador do festival Tarrafa Literária. Nasci em Santos em 1971, comecei como livreiro na mítica Livraria Iporanga aos 18 anos. Em 2001 criei a Realejo Livros e na sequência evoluímos para sermos editores. E, em 2009, estreamos o festival Tarrafa Literária. A parte desses trabalhos todos mantenho o desenho e ilustrações na minha vida. E um futebolzinho também.

Direitos do leitor, deveres do livreiro

Hoje vou dividir com vocês algumas manias adquiridas como leitor e livreiro. Tem tom de confissão

Tenho uma mania que vocês logo (espero) vão se acostumar. A de indicar livros esgotados. Como vivo da venda de livros novos, dependo do mercado para reimprimir os títulos que estão temporariamente fora de catálogo. Digo para a equipe da livraria que a nossa área é limitada, temos 50 metros quadrados divididos em dois pavimentos, mas a livraria das nossas memórias é muito maior, dentro das estantes da minha cabeça tenho uma enorme livraria, maior do que muitas.

Uma das categorias que mais gosto é a de livros sobre livros, a de livros que falam sobre o prazer de ler. Como um romance. Ed. Rocco, do autor francês Daniel Pennac, é um deles, logo de cara se apresentam os direitos do leitor, aqui estão...

1. O direito de não ler
2. O direito de pular as páginas
3. O direito de não terminar de ler o livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler não importa o quê
6. O direito ao “bovarysmo” (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler não importa onde
8. O direito de “colher aqui e acolá”
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de se calar

Eu tenho uma maneira pessoal de orientar minhas leituras. Durante a maior parte do ano, leio os vivos, e nas férias ou brechas e respiros, leio os mortos.

Explico: como sou também editor, além de livreiro, recebo muitos originais para avaliar. São autores e autoras que almejam estrear no mercado editorial e, para isso, submetem seus textos para serem lidos. Faço isso como um bom trabalho, que também gera surpresas, boas surpresas. Nas férias, busco os desencarnados, autores que não estão esperando retorno, e claro que na minha incoerência leio muitos vivos dos bons.

E aqui, um dever meu. Volta e meia, retiro da prateleira um livro que desejo ler. Levo pra casa, começo a leitura, me empolgo, começo a comentar o andamento da trama, do estilo, com clientes, a pilha vai diminuindo até acabar. Resultado: corro pra casa em busca do livro que está intacto, leio com cuidado, não uso a orelha nem marcadores memorizando sempre a página onde parei a leitura, e retorno para a livraria.

Eu aplico todos os direitos do Pennac e somo a eles o meu dever, o dever com o leitor, com o meu leitor.

Opa, preciso repor o mais recente do autor do “Sapiens”, falei tanto do “21 lições para o século XXI” que acabaram, esperem que já volto com ele!

Até a próxima!

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