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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Sem ponte, sem barca, sem respeito

Munícipes enfrentam problemas para realizar a travessia entre Santos e Vicente de Carvalho

Faltam palavras para definir o caos em que se transformou a travessia entre Santos, Guarujá, Vicente de Carvalho. Se de janeiro pra cá predominaram as queixas envolvendo as balsas (ou a falta delas) na Ponta da Praia, agora são também as barcas que levam pessoas de Santos para Vicente de Carvalho, predominantemente trabalhadores que acordam cedo, vão ainda de madrugada para os terminais do Itapema ou do cais santista.

Ouvir o relato desses trabalhadores choca. São, em sua maioria, pessoas simples e que dependem da féria do dia para sobreviver. Pessoas simples que atravessam pra trabalhar, para levar o filho ao médico, para distribuir currículo, para encontrar vaga em hospital. Pessoas simples que já se habituaram a esperar na fila para comprar o bilhete, ficar empilhada na plataforma e dentro das barcas. Carregam suas bicicletas no ombro e dela dependem para cumprir o trajeto quando saem das barcas. Bicicletas não flutuam, não substituem as barcas.

Nada justifica tamanho descaso, nem mesmo dizer que as regras de segurança impostas pela Capitania dos Portos impediram as barcas de sair. Para isso devem haver equipes planejadas e atentas à mudança de regras, equipamentos de ponta dentro e fora das barcas, um jurídico antenado no que é certo e errado.

Não é de hoje que a empresa que administra as travessias deixa a desejar no quesito qualidade do serviço. Nas balsas entre Santos e Guarujá, a imprensa local perdeu as contas de quantas vezes as queixas dos motoristas pautaram as equipes de jornalistas: falta balsa, a balsa quebra, a balsa atrasa, o motor pifa, a balsa vem de outra travessia, a balsa vai para outra travessia. Ali também são trabalhadores. Trabalhadores motorizados, sim, mas ainda assim trabalhadores.

E aos finais de semana, se juntam a eles os turistas que vêm prestigiar as belezas da nossa Baixada, as belas praias de Guarujá, seus restaurantes e bares. Recado ruim que levam desse sistema que há muito já deveria ter sido substituído. Ou, ao menos, melhorado a tal ponto que dele nada se tivesse a dizer. Mas têm. Todos têm. Recado ruim que uma região turística como a Baixada Santista passa aos que nos procuram.

Se é verdade que o serviço piorou porque o Governo de João Doria anunciou a intenção de privatizar a Dersa, mais motivo se tem agora para concordar com essa medida. Não que serviço privado também não tenha suas falhas – pelo contrário, tem -, mas ao menos pode ser punido fortemente se não cumprir as regras.

Já passou da hora de o Governo do Estado dar uma resposta à altura do que os moradores da região merecem. E não se está falando, aqui, de discursos vazios como esse visto em mais um episódio de descaso com os trabalhadores. A resposta precisa ser assertiva, definitiva, convincente. A resposta precisa dizer aos milhares de trabalhadores que dessa travessia dependem que cenas como as de hoje não vão mais se repetir. A resposta pode ser uma ponte. Pode ser um túnel. Ou pode ser nenhuma delas, mas precisa convencer.

Até agora, essa resposta ainda não veio.

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