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Quinta-feira

20 de Junho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Pé de guaco

Médica veterinária de São Vicente resolveu distribuir folhas da árvore de graça para quem precisa

Havia um professor na Faculdade de Comunicação, o Dirceu Fernandes Lopes, que sempre nos dizia: "há histórias prontas por aí só esperando para serem contadas. E esse é o papel de vocês". Quando se tem 18 ou 20 anos, essa é uma frase difícil de interiorizar, mesmo para um estudante de Jornalismo, ávido por furos de reportagem e manchetes incríveis.

O bom da idade chegar é que começamos a enxergar as tais histórias por todos os lados, e essa vem de São Vicente, de lá de perto do Horto Municipal.

A Sandra Peres é a médica veterinária do horto, apaixonada por animais, plantas e coisas simples da vida. Esta semana, percebendo que o pé de guaco que tem no quintal da velha casa da família estava novamente transbordando de folhas, resolveu fazer pequenas sacolas com a folhagem e pendurar na árvore que fica na calçada. O bilhete avisava: "Folhas de guaco (para chá - tosse). Pode pegar sua sacola e levar para quem precisa".

"A planta precisava ser podada, mas dá dó simplesmente descartar. Então, uma forma de não desperdiçá-la foi deixá-la à disposição dos que poderiam aproveitá-la. Fui separando em sacolinhas e preparei um aviso simples. Logo que as pendurei na árvore, já passou uma moça com uma criança, dizendo: "Olha, filho, vamos levar para a vovó fazer chá pra você!" Fiquei tão feliz!", me disse a Sandra.

A história é bem simples, do jeito que o professor Dirceu disse que seria, mas a beleza vem no transcorrer da conversa com a Sandra:

"Não pensei nisso tudo quando podei mas, sem dúvida, uma sacolinha dessas foi motivada, também, pela lembrança de minha avó e de minha mãe, cultivando plantas medicinais e distribuindo a quem pedia. Crescemos nessa realidade. E isso também era uma forma de carinho e mantinha uma energia boa, de doação do seu tempo aos desconhecidos e aos familiares, preparando o chá. E quando aquela moça levou a sacolinha, senti que essa amorosa intenção continua. Ela não sabia preparar o guaco, mas deixou claro que levaria para quem sabe. Assim, naquela despretensiosa atitude, percebi que há uma força que nos liga aos ancestrais, por respeito e gratidão, e que eles, naquele instante, receberam de volta parte do amor doado".

Quantas histórias assim estarão por aí à espera de serem contadas, não é mesmo, professor Dirceu? Obrigada por me dar o alerta lá atrás, ainda na faculdade. Não fosse isso, talvez eu até tivesse achado normal ver sacolinhas penduradas em uma árvore.

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