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Quarta-feira

17 de Julho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

O que você quer ser quando crescer?

Ciência vem prolongando a expectativa de vida. Mas o que fazer com os anos a mais de velhice?

A pergunta que dá título a este texto cabe bem às crianças e pré-adolescentes. O que você quer ser quando crescer? Dentista? Engenheiro? Bombeiro? Jogador de futebol? Cozinheiro?

O bom da idade chegar é enxergar nela uma trajetória que se passou e um tanto a mais que está por vir. E é nesse momento que a pergunta "O que você quer ser quando crescer" pode ser pulverizada mais para frente.

A Ciência e a Medicina têm nos proporcionado viver mais. Viver tanto que a própria referência do "ser velho" vai mudando ao longo dos anos. Quando se é criança, ser velho é alguém com 40, 50 anos. Quando chegamos aos 20, essa linha avança um pouco para 60, 70. E quando a gente vê no noticiário que pesquisadores descobriram a molécula da célula do átomo do DNA do cromossomo da vírgula que indica a cura para males antes comuns na velhice, passamos então a achar que "ser velho" já passa dos 100.

Nos últimos dez dias, a experiência no Jornalismo me permitiu ter um contato bem mais próximo com pessoas assim, mais velhas. Dona Edith Pires Gonçalves Dias completa 100 anos no próximo sábado. E nunca me imaginei entrevistar alguém com 100 anos como se estivesse conversando com alguém de 30, 40, 50. Cabeça boa, atualizada, por dentro das notícias, com uma rotina que só não inclui correr na praia porque o andador já não lhe permite. "A velhice está dentro de nós", filha, me disse ela quando desliguei a gravação. E de onde vem o ânimo para a vida de alguém que perdeu todos os amigos contemporâneos, o filho mais mais velho, o marido? Olhar para o mundo a sua volta precisa continuar tendo um sentido que vá além das pessoas que um dia fizeram parte da sua rotina, do seu convívio, e que hoje não estão mais aqui.

Seu Guilherme Gargantini é outro exemplo de que é possível chegar à velhice de uma maneira saudável e feliz, mesmo com eventuais limitações físicas ou de mobilidade. Há seis anos, ele e a mulher, Monika, criaram o site Divertidosos, onde postam matérias de interesse geral, dicas de saúde, passeios, poesias, vídeos...

Ao contrário da moçada mais jovem, que troca o relacionamento presencial pelo virtual sem pestanejar, o Divertidosos saltou da telinha para os encontros físicos, para os passeios, sessões de cinema e festas temáticas. Uma grande comunidade de gente que se enfiou na internet para depois sair dela com algo mais que apenas trocas de mensagens, posts e curtidas.

- Comecei para entender melhor essa tal de internet. E descobri que com ela a gente consegue fazer novas amizades. Ganhei muitos amigos. E muitos amigos me ganharam também, brinca seu Guilherme, com seus quase 80 anos de vida.

Guilherme Gargantini é um dos fundadores do Divertidosos (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Viver mais não é, necessariamente, viver melhor. Desafiada que foi ao longo de décadas, a Ciência está fazendo sua parte em prolongar essa vida com novas descobertas de drogas e tratamentos. Agora, porém, é preciso dar vida a essa vida. Ganhamos 20, 30 anos de oportunidade para aprender mais, fazer mais pelo outro, fazer mais por nós mesmos, passar às novas gerações um pouco do que aprendemos ao longo da nossa existência, purificarmos a alma e a mente, peneirarmos o que tem importância e o que é descartável.

Hoje, essa discussão parece estar muito concentrada no equilíbrio financeiro do sistema previdenciário: se estamos vivendo mais, quem vai pagar essa conta? Mas o debate é muito mais amplo e transcende a questão financeira. Prefeituras, em especial, precisam olhar para esse público dos 60+ com um olhar mais focado, criando programas específicos que garantam bem estar e felicidade. E não se está falando, aqui, apenas de ginástica na praia, alongamento, alimentação. Os mais velhos querem aprender sobre música, querem aprender um novo idioma, querem transitar na internet, querem fazer cursos de capacitação, querem interagir uns com os outros.

O próprio mercado de trabalho tem aí uma grande oportunidade. Se estamos vivendo mais e podemos viver melhor, por que não aproveitar essa geração de experientes homens e mulheres para uma troca de conhecimento entre gerações? Se o de 20 consegue manejar bem os aplicativos e smartphones, os de 60, 70, 80 saberão, com certeza, manter a serenidade e a resiliência que ambientes corporativos tanto precisam.

A Baixada Santista é um celeiro de oportunidades, que precisam ainda ser descobertas e/ou melhor exploradas. Se antes o desafio era da Ciência e da Medicina, agora é de todos nós. 

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