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Quinta-feira

20 de Junho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

O médico pode estar longe, mas nem tanto

Telemedicina não pode distanciar a relação entre médico e paciente

“Hoje admiti na UTI um paciente de 91 anos. Previamente saudável até 3 meses atrás, quando escorregou e caiu, batendo a cabeça no chão. Desde então, andava meio aéreo, com fraqueza nas pernas, necessitando de ajuda para tomar banho. De 15 dias pra cá, passou a ficar com mais sono e então a família o trouxe para ser avaliado. Na tomografia, um sangramento enorme ocupando 1/3 do crânio, chamado hematoma subdural. Provavelmente em virtude da queda de 3 meses atrás, e assim foi aumentando ao longo do tempo até culminar nos sintomas que o trouxeram ao hospital. Caso grave, necessitava de intervenção cirúrgica às pressas, pois o cérebro estava todo apertado pelo sangue e desviado para o outro lado da cabeça, comprimindo estruturas muito importantes, dado o tamanho do sangramento. Assim que vou me apresentar a ele, nossa primeira troca de palavras foi a seguinte:

- Oi seu João. Sou Giovanna, médica da UTI e vou cuidar do senhor. Me conta, o que o senhor está sentindo? Achei que ele responderia qualquer coisa do tipo: dor de cabeça, tontura, fraqueza no braço. Mas foi então que fui surpreendida com a resposta de alguém com tantos anos já vividos. Ele parou uns segundos, olhou no fundo dos meus olhos, suspirou profundamente e disse:

- Um vazio na alma".

O trecho faz parte de um artigo publicado por A Tribuna tempos atrás, escrito por uma jovem e sensível médica de UTI, a Giovanna Zanatta, que usa sua conta pessoal no Facebook para nos trazer, de tempos em tempos, um pouco de sua vivência na relação médico x paciente. Relatos emocionantes, vivos, sensíveis de alguém que vai além da Medicina.

Lembrei desse texto esta semana, quando o Conselho Federal de Medicina regulamentou a telemedicina, permitindo que médicos façam consultas, diagnósticos e até cirurgias por vídeo, a distância.

Sim, o objetivo é agilizar consultas, encurtar distâncias, fazer com que os recursos cheguem aos rincões deste país que de tudo carecem: de uma simples atadura a um exame de Raio-X.

Mas a tecnologia assusta. Assusta porque não para. Assusta porque não mede fronteiras com a razão. Assusta porque, talvez, um dia, possa não saber identificar quem só tem um vazio na alma para se queixar.

Quero viver o bastante para saber que os médicos de ponta das grandes capitais já conseguem se fazer presentes no agreste nordestino, nas aldeias indígenas do Amazonas, nos povoados ribeirinhos do São Francisco, nas palafitas da Vila Gilda, no México 70, na Vila Edna, em Guarujá. E que pacientes diagnosticados a distância terão ali, na policlínica do bairro, no hospital de referência da cidade, na clínica mantida pelo SUS, o atendimento mais adequado para suas enfermidades. Essa será a Medicina do futuro, a Medicina acessível, a Medicina para todos.

Mas também quero viver o bastante para saber que a telemedicina não suprimiu por completo o contato, o olho no olho, a escuta necessária quando a dor vem da alma, o abraço na hora de uma notícia ruim, o silêncio acolhedor na hora da morte.

A Giovanna Zanatta sabe disso: "Tenho que saber tratar de suas doenças e para isso sempre estudar e estar atualizada, mas também tenho que acolhê-lo neste momento de angústia, para que ele saiba que eu estou ali do seu lado, para ouvir seus receios, compartilhar de seus desabafos e pegar na sua mão. E para isso, não basta apenas ler guidelines; tem que estar de fato presente de corpo, alma e coração".

É isso, Giovanna. O seu João que você admitiu naquele dia, na UTI, talvez nem soubesse como se portar diante de um monitor que "fala" com ele, mas com certeza se sentiu acolhido quando você pousou o estetoscópio na mesa, puxou a cadeira e ouviu o seu relato.

Que venha a telemedicina, é um caminho sem volta e necessário, mas que jamais desconstrua essa relação tão singular e essencialmente humana entre médicos e seus pacientes.

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