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Sábado

19 de Outubro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Morre Roberto Leal, o português dos brasileiros

Poucos tinham o espaço e a relevância que ele conquistou no Brasil em mais de 50 anos no País

Em casa de português todo mundo sabe o que não pode faltar: pão nas refeições (qualquer refeição), uma taça de vinho e música, de preferência daqueles cantores que tocam na alma de todo lusitano que saiu de sua terra natal e cruzou os oceanos. Ao lado de Amália Rodrigues, Roberto Leal é um deles.

A partir deste domingo, o silêncio tomará conta dos lares durante um tempo. Será um dos lutos mais sentidos, mesmo para quem não conhecia direito as letras de suas músicas. Roberto Leal nos deixou nesta madrugada, aos 67 anos. Morreu em um hospital de São Paulo em decorrência de um melanoma, um câncer de pele bastante agressivo.

Diferente de Amália Rodrigues, cantora portuguesa que nos deixou há 20 anos, Roberto Leal cantava um tipo de música mais alegre que o fado. Era divertido, alegre, sacodia o público.

No show realizado em Santos, em 2017, por ocasião do centenário da Portuguesa Santista, o salão social estava lotado, com gerações de portugueses e seus descendentes. Impossível ficar parado:

"Ai bate o pé!
Bate o pé
Bate o pé
Bate o pé
Faça assim como eu
Ai bate o pé
Bate o pé
Bate o pé
Foi assim que
o meu amor me prendeu

Roberto Leal permeava seus shows contando um pouco de sua vida, sua trajetória na música, a família e o prazer que tinha em transitar entre Brasil e Portugal como sendo ambos seus lares. O Brasil acolheu esse português em 1962, quando se mudou com a família aos 11 anos. Em São Paulo, trabalhou como vendedor de doces e sapateiro antes de começar a cantar fados e músicas românticas.

"Arrebita" foi seu primeiro sucesso. E quem não conhece a letra?

"Ai cachopa, se tu queres ser bonita
Arrebita, arrebita, arrebita!"

Inúmeros foram os sucessos desse luso-brasileiro, que interagia com o público e parecia não envelhecer. No último show, algo já parecia estar desconfortável no palco. Cantou sentado na banqueta a maior parte do tempo, e de óculos escuros. "É a idade que vai chegando", brincou.

"Já cantei a cana verde, fandango e o corridinho
O vira, o fado e o malhão cantei a chula do minho
É assim que se arrebenta a festa
E nunca cantar sozinho"

Roberto Leal vai fazer falta, até mesmo aos que não tiveram o prazer de ir a um show. Era a expressão da empatia no palco, a gratidão pela vida, pela terra que o acolheu. Ele conseguia expressar, nas letras de suas músicas, a essência portuguesa que mais tocava o coração: a aldeia, a vida no campo, a saudade dos que lá foram deixados, os amores, a infância na vindima:

"Ai! Que saudades que eu tenho
De alguns anos atrás
Da minha terra querida
Com meus amigos leais
Ai! Que saudades que eu tenho
Da família que não vejo mais
Como estará minha casa
Como estará meu jardim
Onde eu colhi os meus cravos
Depois dos tempos ruins"

Se é certo que algumas pessoas nos deixam um vazio no coração quando partem, também é verdade que outras têm a capacidade de nos remeter a um tempo que muitas vezes sequer vivemos. Roberto Leal era assim. Ficará a leveza de suas letras. Ficará a beleza de seu coração vivo e alegre.

"Ninguém na rua, na noite fria,
só eu e o luar
Voltava a casa
quando vi que havia
luz num velho bar
Não hesitei, fazia frio e nele entrei
Estando tão longe da minha terra
tive a sensação
de ter entrado numa taberna
de Braga ou Monção
E um homem velho
se acercou e assim falou
Vamos brindar
com vinho verde que é do meu Portugal
e o vinho verde me fará recordar
A aldeia branca que deixei
atrás do mar
Vamos brindar
com verde vinho pra que eu possa cantar
Canções do Minho que me fazem sonhar
com o momento de voltar ao lar"

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