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Segunda-feira

13 de Julho de 2020

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Me tragam Noé de volta!

Planejar uma cidade não é só garantir emprego e renda, desenvolvimento econômico, acesso à saúde e à educação. Planejar é garantir sustentabilidade e equilíbrio urbano para médio e longo prazos

Foi Demócrito, numa era da filosofia pré-socrática, que começou a tentar entender as razões pelas quais determinadas coisas aconteciam a sua volta. Ele se fazia perguntas e mais perguntas para chegar a alguma conclusão que desse pistas sobre a previsibilidade ou não desses acontecimentos.

Se fosse vivo, Demócrito talvez tivesse postado em seu Facebook ontem, dia em que as cidades da Baixada Santista ficaram debaixo d´água: "Eu já sabia".

E o que podemos aprender lendo um pouco sobre Demócrito? Que o caos em que se transformou a região ontem vai acontecer de novo. E de novo. E de novo. As fotos postadas, compartilhadas, comentadas e distribuídas durante toda a segunda-feira são iguais às do último temporal, no ano passado, e talvez sejam iguais às do próximo. Embora haja um certo elemento que diferencie esses episódios em função da maior ou menor intensidade pluviométrica, ninguém pode dizer que esse tipo de situação seja surpresa.

As cidades em que vivemos hoje são fruto de ações antrópicas adotadas há 40, 50 anos, e nossos netos e bisnetos viverão em cidades que estão sendo planejadas - ou não - nos dias de hoje. Ao adensar áreas já adensadas, ao suprimir vegetação de locais antes fartamente arborizados, ao impermeabilizar vias que antes dispunham de alguma permeabilidade, ao cobrir rios e canais para ampliar estacionamentos, ao privilegiar o carro em detrimento do transporte coletivo, ao poluir a atmosfera, estamos "planejando" uma cidade que sempre sofrerá com enchentes. E mais que isso: estamos nos propondo a construir uma cidade com baixa qualidade de vida.

E não é só do poder público que se deve cobrar medidas mitigadoras. Jogar lixo nos canais, descartar entulho nas vias públicas, construir um prédio e não dimensionar adequadamente os dutos de água servida são, sim, atitudes que provocarão o efeito devastador visto neste início de semana.

Planejar uma cidade, uma região, um estado não é só garantir emprego e renda a todos, desenvolvimento econômico, acesso à saúde e à educação. Planejar é garantir sustentabilidade e equilíbrio urbano para médio e longo prazos.

Belo Horizonte tapou córregos e canais nas décadas de 70 e 80, imaginando que, assim, estaria ampliando espaço para o crescimento da frota de veículos. Parte do que se viu há duas semanas é fruto desse erro de planejamento, e corrigi-lo demandará centenas de milhares de reais. E tempo. Um tempo tão grande que talvez force o belorizontino a viver ainda outras tragédias.

É possível corrigir ou atenuar os transtornos, sempre é possível. Mas ninguém mais vive na era de Demócrito, em que o que se tinha de tecnologia estava restrito a uma luneta rudimentar e fragmentos manuscritos de mapas da Babilônia, Egito e Grécia.

Vivemos em um universo conectado em tempo real, onde tudo se sabe e se prevê, onde a internet das coisas pode levar conforto e rapidez com uma simples tela touch. Noé só dispunha de uma arca para salvar o mundo. E salvou. Se em pleno século 21 admitimos que não somos capazes de evitar cenas como as de ontem, então, ao menos tragam Demócrito e Noé de volta!

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