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Sexta-feira

19 de Julho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Foto instiga a refletir sobre o meio ambiente

Não sei se isso ainda acontece, mas há alguns anos, nas aulas de Língua Portuguesa, era comum a professora pedir aos alunos que fizessem uma redação a partir da observação de uma foto

Foto instiga a refletir sobre o meio ambiente (Foto: Marcus Neves Fernanades/Arquivo Pessoal)

Não sei se isso ainda acontece, mas há alguns anos, nas aulas de Língua Portuguesa, era comum a professora das classes iniciais do fundamental pedir aos alunos que fizessem uma redação a partir da observação de uma foto ou um objeto.

Podia ser uma foto abstrata, dessas que aparentemente não dizem nada, ou alguma mais concreta, com cenas claras e bem fáceis de serem "lidas" pelas crianças.

A que ilustra este texto me foi encaminhada por whats pelo amigo jornalista Marcus Fernandes, surpreso que ficou com a cena vista na esquina das ruas Alexandre Herculano e Vahia de Abreu.

Se eu fosse uma estudante do fundamental e a professora instigasse a classe com essa foto, acho que minha redação diria mais ou menos assim:

Título: "Já fiz a minha parte"

João saiu pra passear com seu cachorro Thor, e não deixou de levar o saquinho para recolher a sujeira dele, caso fizesse. Thor fez cocô na rua, João recolheu e, sem querer ficar carregando aquilo por muito tempo, pendurou num totem da Prefeitura, desses que foram espalhados por toda a cidade, distribuindo sacos de papel para essa finalidade.

João não sabe - ou talvez não queira saber -, mas para recolher a sujeira do Thor, a melhor opção é o papel, porque decompõe na natureza mais rápido que o plástico.

Muitas pessoas fazem como o João: recolhem o cocô do cachorro e deixam o saco plástico em qualquer lugar, no chão, no canteiro das árvores, pendurado em algum ponto, na guia rebaixada da rua e até em cima dos muros. 

É uma missão pela metade, já que muitas pessoas entendem e estão conscientes sobre a necessidade de recolher das ruas a sujeira de seus cachorros.

A foto parece uma afronta à campanha da Prefeitura, quase uma displicência e uma ironia, já que é possível ver desenhado no tótem o passo a passo do caminho correto: pegar o saquinho de papel do porta-sacos, recolher a sujeira e jogar na lixeira.

Deixar o saco plástico pendurado ali, em um lugar claramente inadequado, evidencia um certo desdém com a cidade e com os cidadãos que nela habitam.

Fico pensando: o que será que o dono do cachorro imaginou?

Hipótese 1: já fiz a minha parte em recolher. Agora, é com a Prefeitura

Hipótese 2: falta colocar no tótem dos sacos uma lixeira para o descarte. Então, deixo aqui pra mostrar isso.

Hipótese 3: Estou nem aí pra campanha da Prefeitura. Largo onde eu quiser e pronto.

A cena mais comum é deixar o saco plástico no canteiro das árvores, imaginando que as "moças da limpeza" vão passar e recolher. E quem fala em sujeira dos cachorros, fala também na bituca dos cigarros, na lata de refrigerante e cerveja, no papel e palito do sorvete, no copo plástico, na garrafinha de água, enfim....

No fundo, todos acham que já fazem sua parte e que o poder público é responsável pela maior fatia dessa tarefa que é cuidar do planeta, garantir sua sustentabilidade.

Eu não sei como terminaria essa redação para a professora de Português que nos trouxe essa foto. Mas, com certeza, eu sairia da aula incomodada. Incomodada com o politicamente correto das pessoas que acham que já fazem sua parte. No fundo, acho que nem tudo está pior como preconiza a maioria. Não, nada disso. Já evoluímos bastante no quesito "consciência de mundo", mas penso que agora entramos num estágio um pouco mais difícil e desafiador: fazer com que todos entendam o processo do começo ao fim, aprimorando seus comportamentos, corrigindo posturas equivocadas e, mais importante que tudo: passando às novas gerações um modelo correto, aquele que deve ser perpetuado.

Espero termos tempo pra isso. Torço para que o Planeta espere por nós.

Marcus Fernandes, que daqui 20 ou 30 anos seus filhos e netos já saiam de casa com um saco de papel e essa cena da foto jamais seja vista novamente.

Professora, não seja muito cruel com a minha nota. É que o final da redação depende de muitas respostas. E eu não as tenho ainda.

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