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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Feira livre, o lugar onde o tempo parou

Poucas coisas nesta nossa sociedade contemporânea passam blindadas aos efeitos da tecnologia, especialmente das novidades e rapidez do mundo web. Da forma de se comunicar à compra de um bilhete aéreo, tudo, em alguma medida, tem sido impactado pela revolução chamada dáblio dáblio dáblio.

Existe um pedaço do mundo, porém, que parece conservar a essência de antes, com a interação de antes, as conversas de antes, a leveza de antes, as cores de antes. Aqui em Santos ou em  Londres, lá em Espinho, Portugal, ou em Paris, esse lugar atende pelo nome de feira livre. Ali, o mundo parece ter parado onde tudo começou. A tecnologia foi apenas até a página dois: agora, já é possível usar o cartão de débito ou crédito.

Se você não tem nada pra comprar, ou se você tem tudo pra comprar, vá a uma feira livre. Se não para voltar com o carrinho ou a sacola cheios de frutas, verduras e legumes, ao menos a alma se enche de graça e alegria pelo simples passeio entre barracas que há séculos montam seus visuais da mesma maneira: lonas listradas na frente, lonas alaranjadas em cima, madeiras separando os produtos, os velhos papeis presos com um pregador indicando o preço ou rabiscados  com giz em uma tabuleta preta. Esse valor vai diminuindo conforme se aproxima o final da feira, lá pelo meio-dia, uma da tarde. E quando chove, volta e meia o feirante vai lá na lona de cima empurrar as barrigas de água que se formam no teto.

- Olha a áááágua! Avisa gritando...

Invariavelmente, há um feirante falante atrás da barraca, que pesa, ajuda a escolher, separa o saco plástico, faz troco e, se for solicitado, ensina como preparar o alimento de uma forma diferente.

Nas feiras livres as pessoas parecem ter tempo para a prosa, parecem transpirar empatia, vontade de interagir. É como se ali tudo pudesse,  até conversar com estranhos, dar risada do outro, tocar nos produtos sem o olhar assustador do vendedor.

O linguajar também é típico e faz parte da terapia do riso. Mas vá devagar, bem devagar, que é para absorver a essência desse mundo tão diverso:

- Cinco é a bandeja de caqui. Faz duas por oito. Mas tem que ser aqui, no shopping das frutas!

- Banana, banana, banana! Moça bonita não paga.....mas também não leva!

- Alô, alô, seu Manuel. Vem aqui comer pastel!

- Pega no melão que aqui ele tá bão..

Nas barracas das feiras, as relações parecem mais leves. Na barraca do seu Wilson,  um pequeno paraíso de laticínios, frutas secas, temperos e uma infinidade de secos e molhados, experimentar faz parte do ritual.

- Quero um queijo, seu Wilson, mas com pouco sal, por favor.

- Vamos começar por aqui, então?, diz, já com o facão na mão abrindo um e outro.

Dali não se sai sem ao menos um pedaço de carne seca, uma costelinha salgada, um queijo meia-cura, uma alheira ou um saco de amendoim.

Na barraca da dona Ana, a gente pode trocar os tomates da bacia do molho:

- Tem tomate pra molho, dona Ana?

- Sempre, minha filha. Tá ali dentro. Fui botando a olho. Vai lá e troca o que quiser.

Tem também a barraca da Vera, um verdadeiro shopping de utilidades domésticas: pano de prato, ralinho de pia, gel pra matar barata e formiga, caminho de mesa, desentupidor, puxa-saco, porta papel, colher de pau, esfregão, bucha....Mas o que nem todo mundo sabe é o que fica atrás da barraca da Vera. Virado pra calçada, uma oficina de conserto de panelas, tampas de pressão, cabos e tudo que diz respeito à cozinha. À frente desse comércio tão peculiar fica um jovem senhor, muito disposto a ajudar, mas de poucas palavras. Tão poucas que nunca me atrevi a perguntar seu nome.

E a barraca de temperos, então? Os tradicionais pimenta, cravo da índia, canela, cominho, curry se juntam a um sem-número de novas combinações: chimmi churry, beto guedes, ana maria Braga etc, etc. Cada qual tem sua utilidade certa, e não falta conversa da feirante pra ensinar onde salpicar essas novidades.

Nas feiras livres as pessoas são livres. Parecem livres. Livres pra pechinchar, pra puxar papo com quem encontra toda semana no mesmo lugar, pra lamentar os preços sempre que a safra sofre diante das intempéries do tempo. Se chove muito o preço sobe. Se tem estiagem o preço sobe. E assunto não falta entre feirantes e o público.

Se há um porém a observar está no desperdício e no pós-xepa, aquele momento em que caminhões e carretos encostam pra carregar a caixaria de volta e expõem tristemente montanhas de produtos jogados no chão. Quanto daquilo se transformaria em sopão e comidinhas alternativas para quem precisa? E se não servem pra comer, que um destino mais civilizado se desse a esse lixo que não fosse largá-lo na rua. Está aí algo a nos desafiar.

Feira livre desvaloriza o imóvel. Verdade? Verdade, dizem os corretores. Feira livre atrapalha o trânsito. Verdade? Verdade, dizem os motoristas. Mas que as soluções jamais passem por eliminá-las do cotidiano das cidades. Elas colorem ruas, avenidas e praças. E colorem os dias de quem vive, respira e sente a vida nessas cidades, em uma simbiose tão peculiar e sublime que nem a voracidade da tecnologia conseguiu ainda desmanchar.

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