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Domingo

25 de Agosto de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Envelhecer

Ela vai me buscar no final do expediente quase todos os dias, mas sempre no banco de trás do carro, onde, preventivamente, já colocamos na porta a trava de criança para ela não abrir durante os trajetos. E também quase todos os dias eu apresento o mundo a ela: digo quem sou, onde e com quem está morando, onde ficam o banheiro e o seu quarto. À pergunta "Onde está o meu pessoal?', repetida dezenas de vezes durante o dia, respondo que logo, logo vai chegar.

Dia desses, de frente para o espelho do elevador, fitou surpresa o seu e o meu rosto. Perguntei quem eram aquelas pessoas refletidas ali: silêncio absoluto até chegar ao terceiro andar. 

Na hora de dormir, uma luzinha sempre fica acesa para aquelas noites em que acorda e andarilha pelo corredor, abre e fecha as portas do guarda-roupa, acende e apaga as luzes, fala consigo mesma. Umas semanas atrás, foi ao nosso quarto e espiou sorrateira: queria saber quem eram aquelas pessoas estranhas que estavam naquela cama. Quando dissemos que ali estavam o filho e a nora, disparou:

-Tem um cantinho aí pra mim?

Se é verdade que viemos a este mundo quantas vezes forem necessárias para aprimorar o espírito e sermos pessoas melhores, tenho certeza que ela não virá mais. Foi a melhor pessoa que já conheci, com uma bondade infinita e natural, um coração bondoso e braços acolhedores para todos.

Cuidar dela não exige tecnologia. Não exige nenhuma tecnologia. Então, ser cuidador de idosos é, talvez, uma das raras profissões que passarão incólumes aos efeitos da internet, que elimina postos de trabalho, substitui o contato entre as pessoas por hologramas e Watsons, plastifica as relações entre consumidor e fornecedor. Sim, novas profissões estão surgindo, é verdade, mas quase todas envolvendo o domínio da tecnologia.

De 2007 a 2017, cresceu 547% a função de cuidador de idosos no Brasil, país em que a população acima de 60 anos representa uma curva ascendente nas últimas décadas, e mais ainda na Baixada Santista.

Os números dizem algo sobre a nossa sociedade: é preciso planejar as cidades e, principalmente, qualificar a mão de obra para cuidar dessa população que envelhece e tem necessidades muito peculiares.

Parte dessas necessidades se descobre em cursos profissionalizantes e superiores, mas uma outra parte se aprende na prática, extraindo lá de dentro alguns valores e qualidades que muitas vezes nem sabíamos possuir: paciência e compaixão entre elas.

Às cidades e seus governos fica o alerta: daqui 20 anos haverá muito mais velhos do que jovens. É preciso ajustar serviços e espaços para essa demanda.

Às famílias, outro alerta: (re)ensinem as crianças sobre respeito aos mais velhos e a suas histórias. Não teríamos chegado até aqui não fosse o trabalho desses que, hoje, precisam tanto de nós como um dia precisamos deles.

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