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Terça-feira

17 de Setembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Diferentes histórias para um mesmo final: a rua

É preciso entender que, dentro desse universo de homens e mulheres em situação de vulnerabilidade social, há um leque de histórias de A a Z, e que não se pode nem se deve tratar igual os diferentes

Próximo ao ponto de ônibus onde desço todos os dias há sempre um colchão, um cobertor dobrado e uma muda de roupas delicadamente colocada na ponta, como se tivesse sido passada e aguardasse o momento de ir pra gaveta. Cada dia uma muda diferente.

Dia desses, saindo um pouco mais tarde do jornal, vi que ali dorme um jovem, 30, 35 anos, e que grita conversando consigo mesmo, gesticula forte, treme até. Descobri recentemente que sofre de transtornos psiquiátricos, a família não conseguiu ou não soube ou não teve condições de lidar com ele, e a solução foi sair de casa.

Imagino que passe o dia atrás de comida.

Pela Avenida Afonso Pena, sempre vejo um senhor caminhando rápido, pele castigada pelo sol, descalço, sem camisa e com a bermuda quase arriada. Anda pra lá e pra cá até que cansa e se deita no chão, no meio-fio ou na calçada.

Em frente à Hospedaria dos Imigrantes, uma legião de homens e mulheres, todos aparentemente catadores de lixo, alguns usuários de drogas, outros profissionais do sexo. Todos se escoram e montam suas tendas à beira daquela ruína, correndo risco de desabar a qualquer momento, como já aconteceu anos atrás, soterrando um morador em situação de rua.

Na praia, pessoas largadas na areia, nos jardins, nos bancos e alamedas estão aos montes, com seus cachorros, sacolas, carrinhos suprimidos dos supermercados. Tomam banho nos chuveirinhos, fazem a barba, lavam suas roupas e até banho nos cachorros dão.

Quatro cenários diferentes, mas que parecem iguais.

Não é confortável ver cenas assim. Não transmite segurança cruzar com pessoas assim. Não é sonho de consumo de cidade turística nenhuma ter em seu território pessoas vivendo assim.

Mas entre esse desconforto e o desejo de eliminá-los da frente há uma distância muito grande e um risco maior ainda. Nas redes sociais proliferam manifestações higienistas e perigosas, que pedem o banimento dessa população. É preciso entender, porém, que dentro desse universo de homens e mulheres em situação de vulnerabilidade social há um leque de histórias de A a Z, e que não se pode nem se deve tratar igual os diferentes.

Todos são moradores em situação de rua, mas se há foragidos da Justiça (e há), precisam voltar para as grades; se há usuários de álcool e drogas (e há), precisam ser encaminhados aos serviços de saúde; se há crianças e adolescentes, devem ser entregues a suas famílias ou abrigadas em locais adequados. Se infringem o Código de Posturas, usando espaços públicos como se particulares fossem, devem ser advertidos.

Imaginar que haverá uma política pública que trate de forma assertiva e definitiva essa população é ilusório. Cada história de vida que levou esses andarilhos para a rua é única, individual e, como tal, não tem solução igual.

E por que em Santos tem muito mais gente vivendo nas ruas do que nas demais cidades e até nos demais municípios turísticos do País? Há muitas respostas para essa pergunta, e algumas tangenciam práticas nada republicanas adotadas por prefeituras e cidades balneárias.

Na pesquisa origem-destino, muitos desses cidadãos que aqui chegam vêm trazidos pelas próprias prefeituras, em lotações que descartam  "pessoas inservíveis" de seus territórios. Ou ganham passagens só de ida para que aqui se instalem.

Essa também é uma mão-de-obra barata para os comerciantes que exploram o verão para vender na praia: cobram pouco para empurrar carrinhos, montar e desmontar barracas, vender bugigangas na areia. Para isso eles servem, claro.

Há quem use esses homens e mulheres para, em troca de dinheiro pouco, levar entulho, eletrodomésticos, móveis e descartes variados para ruas, praças e recantos públicos, em vez de contratar uma caçamba e, claro, pagar mais caro. Para isso eles também servem...

E há, também, é preciso dizer, a inépcia e a letargia das autoridades, que parecem não aplicar a contento o rigor da lei no quesito venda de drogas, identificação dos procurados da Justiça, presença de crianças e adolescentes praticando pequenos furtos.

Só quem lida com população em situação de rua sabe como é difícil convencer alguém a se tratar, a procurar um serviço público de saúde, um encaminhamento profissional, um abrigo. Quem mora na rua há muitos anos por opção de vida não quer sair, não se ajusta mais aos hábitos de civilidade, não tem mais discernimento sobre o convívio doméstico.

É preciso, então, estudar permanentemente essa população e enquadrá-la em nichos diferentes: para cada um, um caminho possível. Um caminho que depende das autoridades, do rigor da lei, da persistência de políticas públicas, da conversa com comerciantes que exploram essa mão de obra barata, de campanhas coletivas.

Não se trata de olhá-los com paternalismo ou resignação, mas de entender e enxergar ali um desvio social, uma mazela humana que precisa ser corrigida ou atenuada. Corrigida ou atenuada com políticas públicas sérias e adequadas, para que não prospere na sociedade o perigoso sentimento higienista que parece surgir de tempos em tempos.

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