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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Daniel Castanho: 'A escola tem que ser um lugar para inspirar, para provocar os alunos'

Entrevista com o educador, presidente do Conselho de Administração do Grupo Ânima

“A escola tem que preparar os alunos para que deixem de ser passivos e sejam ativos. Se sentirem empoderados, capazes, não terem medo de arriscar, de ousar, de criar. Terem curiosidade, sede pelo desconhecido, não terem medo de delirar e expor suas ideias malucas. A escola é o lugar da prototipagem, de errar, de arriscar, de aprender. E para que a vida seja assim também, você tem que ter vivido num ambiente que te provoque, que te inspire, que te molde para fazer transformações na sociedade”.

Essa fala não é de uma entrevista, mas de um post recente no Instagram do educador Daniel Castanho, presidente do Conselho de Administração do Grupo Ânima, um dos maiores do País, e que tem em seu guarda-chuva várias instituições de ensino. Entre elas, a Universidade São Judas-Unimonte.

Os posts de Castanho nas redes sociais estão em sintonia com o que ele pensa, defende, acredita e fala em palestras pelo Brasil. Na última segunda-feira (28), foi dele a palestra de abertura do A Região em Pauta sobre Educação.

Esta página poderia ser de pergunta-resposta, mas não foi preciso fazer perguntas. Para que nada se perdesse, o texto a seguir é quase a íntegra do recado que Castanho deu à plateia por mais de uma hora.

“Novas metodologias, novas maneiras de ensinar são muito mais efetivas que algumas aulas apenas expositivas. Então, se a escola pudesse ter apenas dois indicadores, seriam: aprendizagem por hora, ou seja, como é que eu tô ensinando, e a outra: eficiência, ou seja, se aquilo que eu tô ensinando tá servindo para alguma coisa.

O que adianta eu dizer que meus alunos aprenderam latim em três meses se eles não vão usar o latim pra nada? Então, o que eu quero dizer é que temos que fazer com que os alunos aprendam mais. E para que eles aprendam mais, essas novas metodologias (música, arte, cinema, dança) ajudam a dar sentido, são lúdicas.

Muito mais importante que o destino é o caminho. A escola tem que ser um lugar para inspirar, para provocar os alunos.

E como é que os pais vão entender essa escola sem as metodologias tradicionais?

A conscientização dos pais se faz através do diálogo, de uma escola aberta, do testemunho das próprias crianças, com uma escola democrática. E ao mesmo tempo, com uma integração entre a escola como um todo e dando mais autonomia e empoderamento aos professores.

E os professores estão sendo preparados para esse novo modelo de escola?

Eu acho que os cursos de Pedagogia precisariam ser reinventados. Hoje nós temos evidências do que funciona e o que não funciona. Não adianta mais estudar apenas a teoria e contrapor o que eu disse e o outro disse. Isso é importante apenas para dar subsídios e criar ferramentas que sejam efetivas na aprendizagem do aluno. No Brasil aconteceu uma passagem que era pra ser muito interessante e importante, mas não foi: os professores que completam uma pós-graduação ganham um adicional no salário. Incentivou-se o professor a procurar o curso mais barato, mais rápido e mais fácil, porque a cada certificação você aumenta o seu salário.

E o que deveria acontecer? O professor deveria ganhar mais conforme o grau de aprendizagem de seu aluno. Não é verdade que aumentando o salário de todo professor o rendimento será melhor. Então, o que poderia ser feito? Poderíamos criar uma prova optativa em que os professores que fossem aprovados ganhariam mais. Essa prova avaliaria o quão eficaz esse professor é no aprendizado de seu aluno. Essa prova seria aplicada nos cursos de Pedagogia, após a conclusão da faculdade.

Então, eu acredito que se a gente criar um programa de capacitação do professor e que essa capacitação possa ser medida pelo nível de aprendizado de seus alunos, eu acho que a gente começa a ter uma transformação na educação.

E diante de tantas tecnologias novas, o que será o papel do professor na sala de aula no futuro?

Nos próximos anos, vai haver uma mudança bem radical nas escolas. De nada adianta se a lição de casa agora não for mais no papel, mas através de novas tecnologias, se essas novas tecnologias não forem colaborativas, de integração.

Quando eu falo da grande disrupção em relação à tecnologia, eu falo de algo maior. Por exemplo: por que os alunos de uma classe precisam fazer trabalho em grupo apenas com alunos dessa classe? Se hoje a tecnologia te permite estabelecer conexões externas, por que não interagir com outras escolas, outros estados, outros países? Por que não?

E o professor nesse contexto? Essa é a grande disrupção: o professor é aquele cara que inspira, que provoca.

O que eu quero dizer é o seguinte: a grande transformação que a tecnologia pode fazer é mudar esse sistema de ensino, que foi estruturado há 40, 50 anos, para um grande ecossistema de aprendizagem, em que criemos uma comunidade de aprendizagem. Aí ninguém mais vai estar sozinho.

Então, eu vejo o futuro com a tecnologia dessa maneira: de um lado, a análise de como os alunos aprendem, o que aprendem e o professor sendo avaliado por isso e, de outro lado, a criação de um grande ecossistema de aprendizagem, com todo mundo conectado.

A gente só conseguiu ter algum desenvolvimento econômico nos últimos 20 ou 25 anos no Brasil porque deixamos de ter planos de governo e passamos a ter uma política de estado.

Independentemente de quem esteja lá, de alguma maneira está seguindo uma certa diretriz. O que a gente precisa no Brasil é parar de ter plano de governo e ter plano de estado. Educação não pode ser prioridade. Tem que ser premissa.

Assim como para nós é inconcebível como é que nossos bisavós conviveram de forma pacífica e harmônica com a escravidão no passado, será inconcebível para nossos bisnetos e tataranetos quando sentirem a mesma coisa em relação a gente: como é que podíamos conviver com duas escolas, uma pública e outra privada?

Não tem nada mais precioso no mundo que a capacidade de sonhar. O dia em que a Educação for tão inclusiva como a bola de futebol, aí, sim, vamos ter realmente um país diferenciado.

Christovan Buarque fala uma coisa muito interessante: se todo político eleito tivessea obrigação de colocar os filhos na escola pública, quem sabe a gente mudasse esse país.

O que vale eu colocar na parede que eu sou intermediário 4 em alemão se não falo uma palavra em alemão? Acho que as pessoas começam a entender que elas precisam aprender para além dos certificados. E o desafio da escola é esse: deixar de ser chata e passar a ser prazerosa. Imagine uma escola que não tem chamada, não tem que fazer prova, não tem certificado nenhum e, mesmo assim, ninguém falta? É essa a escola que vamos ter que criar.

O tempo que os alunos passam na escola tem que ser mais legal que o tempo que eles passam no Instagram. E mais legal ainda é dar significado ao que eles estão aprendendo.

O ecossistema que eu falei vai valer mais ainda quando tivermos uma sociedade educadora. A hora que a sociedade enxergar no professor o valor que ele realmente tem.

Tem muitas escolas que usam a tecnologia, mas fazem mais do mesmo. Não é ler um livro em PDF e não em papel que faz da escola mais ou menos tecnológica, mais transformadora ou não. É a provocação, a investigação, a busca, é fazer com que os alunos não aceitem aquela resposta que você deu pacificamente.

Uma sociedade bem desenvolvida passa necessariamente por uma escola e uma universidade desenvolvidas também. A gente vive um momento incrível no Brasil, de poder se reinventar. Que a gente não perca essa paixão. A transformação virá com pessoas apaixonadas, inconformadas e competentes”.

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