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Terça-feira

12 de Novembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Como vai você?

Desde que o Ministério da Saúde abriu as ligações gratuitas pelo 188, triplicaram as chamadas para o 188 do CVV

Existe uma piada corriqueira que define pessoas “chatas” como aquelas que, não sabendo distinguir gentileza de situações reais, aceita o convite para “passar lá em casa e tomar um café” quando, na verdade, só se estava sendo educado em convidar. No início, até achava isso engraçado mesmo, uma atitude típica dos “sem-noção” que se apresentam na casa do outro “apenas para conversar” quando esse outro estava ensaiando cuidar das suas coisas e ficar de boa.

Conforme a idade vai chegando, vamos aprendendo a definição correta das palavras. Não a que está no dicionário, mas aquela definição que se encaixa perfeitamente a cada uma das situações reais. Uma somatória de circunstâncias me leva a acreditar que sempre devemos ouvir quem nos procura para falar.

Há dois anos, em uma entrevista com um dos fundadores do Centro de Valorização da Vida (CVV), Jacques Conchon, a frase final me impactou: “Vivemos ainda em um mundo de surdos”. Os surdos somos todos nós, que chamamos de chato o amigo que apareceu fora de hora “apenas para conversar”, ou que burlou a ditadura do whatsApp e ligou diretamente no celular, sem antes perguntar se podia fazer isso, ou que bateu à porta para aquele café fora de hora.  Desde junho do ano passado, quando o Ministério da Saúde e o CVV abriram o 188 para todo o País, com ligações gratuitas 24 horas por dia, triplicou o número de ligações de pessoas que querem “apenas falar”. Falar sem serem julgadas, criticadas, comparadas, estigmatizadas. Apenas falar.

“Um dia, recebi a ligação de um senhor, que se disse ser executivo de uma grande empresa. Do alto de sua segurança corporativa e importância dentro da holding que dirigia, falou e chorou sem parar durante meia hora. Agradeceu e desligou o telefone. Disse que já estava melhor”, me contou Conchon na entrevista, do alto de seus 75 anos de vida.

Esses pequenos sinais que a vida foi me dando me permitiram enxergar diferente para a conversa. “Jogar conversa fora” nunca foi algo tão relevante em tempos de agenda cheia, dia curto, comunicação digital, pessoas multitarefas, e aquela eterna sensação de que alguma coisa importante ficou por fazer.

Se a agenda apertada não nos permite dar atenção a todos que nos cercam e precisam falar, que ao menos estejamos abertos a abrir a porta para o café. Longe de ser o “chato que aceitou o convite”, pode estar ali alguém que só precisa de seus ouvidos emprestados por alguns instantes.

Até porque, qualquer dia desses, poderá ser você a precisar de um café fora de hora. E nada melhor que ter uma porta aberta e um ouvido pronto para te escutar.

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