EDIÇÃO DIGITAL

Quarta-feira

17 de Julho de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

'Chore no começo para sorrir no fim'

Marta emociona ao final do jogo contra a França. Recado extrapola os campos de futebol e se estende a quase todas as atividades profissionais

120 minutos. E poderiam vir mais 20 ou 30. Poderiam vir os pênaltis também. Quando todos esperavam uma fala resignada e triste, uma fala de consolo ou algo do tipo "fizemos o nosso melhor", surge diante das câmeras, para todo o mundo, uma Marta que parece vestida de energia:

- Não vai ter uma Marta pra sempre. Não vai ter uma Cristiane pra sempre. O futebol feminino depende de vocês pra sobreviver. Então, valorize mais. Chore no começo pra sorrir no fim.

O polêmico batom vermelho ainda estava lá naquela boca que buscava as palavras certas e tentava engolir o choro para dar o recado a todas aquelas que gostam do futebol e pensam em trilhar seus passos. O recado da alagoana de 33 anos foi muito claro: o caminho não é fácil, meninas. E se vocês quiserem um dia pisar neste gramado com a camisa amarela e ganhar projeção, de nada adiantará lamentar pelos cantos a falta de patrocínio e a ele atribuir os fracassos.

De onde vem a fibra dessa mulher? De Dois Riachos, interior de Alagoas, com certeza não é. De família humilde, seu pai abandonou a casa, a mulher e quatro filhos quando Marta tinha apenas um ano de idade. "Menina não joga futebol. Isso é coisa de menino" deve ter sido a frase mais comum naqueles idos dos anos 90, quando sequer se falava em futebol feminino profissional.

Marta construiu sua carreira devagar, com foco, "engolindo o choro" como pareceu estar na entrevista pós-derrota para a Seleção da França. Passou pelo Vasco da Gama, depois Santa Cruz, de Minas Gerais, e depois foi para a Suécia, onde começou a ganhar visibilidade internacional.

A projeção não lhe tirou a humildade. Os seis títulos Fifa como melhor jogadora do mundo não a fizeram esquecer sua origem e o tanto que o esporte ainda precisa caminhar. A condição de maior artilheira de Copas do Mundo de toda a história só a torna ainda mais ícone.

Vaidosa, bonita e cheia de vida, Marta comemorou cada um dos gols nesta copa levantando a chuteira para as câmeras. Lá, o desenho azul e rosa representava o protesto pela desigualdade de patrocínios que também no futebol põe em campos diferentes homens e mulheres.

- Por que os patrocinadores acham que eles valem mais? Perguntou ela em uma das entrevistas.

Fico imaginando essa Marta na concentração, durante os treinos, nas conversas com as demais meninas do grupo, nas neuras que elas trazem e que são comuns às mulheres que decidem se embrenhar em um mundo eminentemente masculino. Suas passagens de vida devem funcionar como terapia de grupo. Para cada dia de indecisão, um capítulo diferente.

A derrota da Seleção Brasileira ficou restrita às quatro linhas. E se alguma tristeza momentânea acometeu torcedores e equipe técnica, sua entrevista vem revestida de um gás natural que mistura fé, coragem e determinação. Um gás raro entre os humanos, e que vai fazer falta quando não estiver mais circulando pelos gramados do mundo.

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.