Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Carta de um jovem ao ministro Abraham Weintraub

O que me preocupa mesmo, ministro, é o meu futuro, e é por isso que escrevo esta carta

Sr. ministro,

tomo a liberdade de enviar esta carta ao senhor como forma de expressar meu sentimento em relação às últimas notícias sobre o Enem, o Sisu e o Prouni, um tema que tomou conta de quase todos os jornais, TVs e sites país afora. Tenho 18 anos, vivo na periferia, acabei de terminar um ano de cursinho comunitário e penso que talvez o senhor e o presidente Jair Bolsonaro não tenham um conhecimento muito profundo sobre como vivem e estudam os jovens da periferia.

Estudei a vida inteira em escola pública. Como nem sempre tinha vaga nas escolas aqui do meu bairro, minha mãe se esforçava pra me levar e buscar em escolas mais longe. Ela sempre me disse que a Educação é o caminho pra uma vida melhor. Ela não estudou. É diarista.

Mesmo com o esforço dela, precisei começar a trabalhar. E foi numa barraca de feira que ganhei um bom dinheiro pra ajudar lá em casa durante todo o Ensino Médio. Aqui em casa somos em seis: eu, minha mãe, minha vó e mais três irmãos. Meu pai trabalha numa empreiteira, como peão, e tá sempre viajando por onde tem obra.

Terminei o Ensino Médio em 2018 e, mesmo trabalhando na barraca, consegui estudar em casa com as apostilas de um cursinho comunitário que tem aqui no meu bairro. Difícil, sr. ministro. Difícil chegar em casa, ajudar a mãe com os irmãos menores e ainda estudar à noite.

Fiz o Enem porque minha mãe disse que faculdade só se for pública. Ela não tem dinheiro pra pagar mensalidade nas particulares. Sabe, sr. ministro, 2019 foi um ano bem complicado. Eu estudei muito. Abri mão do futebol com os amigos. Levei apostila pra feira pra estudar nas horas vagas. Deixei de ir nas festinhas dos meus amigos e até nos aniversários da família. Meu sonho é e sempre foi ser professor, e escolhi fazer Letras pra isso.

Mesmo não tendo muita idade, tenho acompanhado um pouco do que o senhor e o presidente andam fazendo na Educação. Antes do senhor estava o ministro Ricardo Velez Rodriguez. Fiquei preocupado quando ele disse, sobre o ensino superior, que a "universidade não é para todos, muito menos as universidades federais". Torci para que ele saísse. E ele saiu.

Aí chegou o senhor e me assustei um pouco quando disse que cortaria verbas de algumas universidades federais, como a UnB, por estarem promovendo "balbúrdia" em seus campi. Puxa, a UnB é meu sonho de consumo, sr. ministro. É uma referência nacional, uma universidade com qualidade reconhecida lá fora. Mas isso passou.

Depois teve um outro episódio, em que o senhor defendeu que a polícia poderia, sim, entrar nas universidades em que estivesse ocorrendo propaganda eleitoral. Eu até acho que a imprensa agiu com um certo exagero contra o senhor. Afinal, se essa entrada da polícia for com educação e respeitando a lei, que mal há, não é?

E olha, senhor ministro, eu não vou considerar todas as suas gafes com a Língua Portuguesa em posts no Twitter e nas demais redes sociais, como aquele em que o senhor escreveu paralização, com "z" mesmo, ou quando falou em "suspenção" de pagamentos em vez de "suspensão". Tudo bem que alguns deles são inadmissíveis até para mim, que sou mais jovem, mas quem não erra, não é verdade?

Mas o que me preocupa mesmo, ministro Weintraub, é o meu futuro, e é por isso que escrevo esta carta. As falhas no Enem e agora a insegurança no Sisu me tiram a esperança de ir neste ano para a universidade pública. De novembro pra cá eu vivi a expectativa pela divulgação das notas no Enem. Tirei 620 (não quero nem pensar que possa ser verdade o que os técnicos do MEC disseram à imprensa esta semana, de que faltou  checagem em algumas questões).

O Sisu é um sistema inteligente, que dá oportunidade a todos, mesmo que para vagas bem longe de onde moramos. Aqui em casa, minha mãe e minha vó já disseram que vão se esforçar pra me bancar caso eu passe mesmo na UnB ou na Federal de Macapá. É lá que tem o curso que eu quero, e para onde minha nota permite. Mas será que vou conseguir? Quando o senhor e sua equipe vão nos dar segurança?

Senhor ministro, tome a frente disso, por favor. Em meu nome e em nome dos 3,9 milhões de estudantes que querem entrar em 2020 estudando, eu peço: se não for em nome da biografia que o senhor construiu e gostaria de manter, que ao menos seja em nome de jovens como eu, que ainda acreditam que a Educação é a única forma de melhorar este País.

Cordialmente

Um jovem vestibulando

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