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Sábado

15 de Dezembro de 2018

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Ali, onde todos são iguais

Muita gente que mora na beira do mar passa ano e entra ano sem botar os pés na areia ou molhar a ponta dos dedos na água salgada. Mas reage freneticamente à pergunta:

- Como é que você mora em Santos e não vai à praia?

- É que gosto de saber que ela está lá se eu precisar!

De um ano e meio pra cá comecei a entender melhor essa filosofia - quase um mantra para alguns. Saí do sedentarismo pelas mãos de um personal em agosto do ano passado e, de lá para cá, vou à praia três vezes por semana para treinar. Nesse período todo, jamais botei os pés na água, mas descobri um pedaço de terra onde todos são iguais. Andando, correndo ou simplesmente "estando", há um sentimento bom que une aquelas pessoas naquele ambiente, como se fosse uma brisa a tocar no rosto de cada um e extrair de lá de dentro as melhores virtudes.

Indo à praia sempre nos mesmos dias e horário, compartilho da mesma "tribo", ou seja, pessoas que também escolheram esses momentos para caminhar, correr ou "estar". E quando essas pessoas se cruzam, do 6 para o 1 e do 1 para o 6, a primeira expressão que surge é "bom dia!". 

Nós não conhecemos, não sabemos onde vivem, o que fazem, com quem moram, que histórias trazem e se estão ali por recomendação médica ou prazer mas....o que importa isso? Naquele momento em que os olhares se cruzam e percebemos que é o mesmo olhar familiar do dia anterior, o sorriso é inevitável. E a sensação, a melhor possível.

Estranho é quando alguns dias se passam e não encontramos este ou aquele personagem a que já nos habituamos. Dá até um sentimento de preocupação. O que terá acontecido?

Na agenda das 6 da manhã - a minha agenda - encontro sempre o seu Ricardo, um aposentado que chega de bicicleta e para no Posto 6. Alonga, se pendura nos metais de exercícios que ficam na areia e conversa alegremente com quem chega. Todos já conhecidos, é claro. 

Tem também o Marquinhos, o Pulga, o seu Jair e umas senhoras engraçadas que passam conversando animadamente pela calçada interna dos jardins. Pra todos eles:

- Bom dia!

- Bom dia, tudo bem?

Correndo na praia encontro a menina que corre rápido na beira da água, segurando os chinelos na mão. Encontro também o seu Geraldo, o Eduardo caminhando com o pai, o seu Manoel Marcelino,  e a Sônia e a Priscila, que limpam a sujeira deixada perto dos quiosques.

- Bom dia!

- Bom dia, meninas!

Um dia, correndo junto com o meu treinador, passamos por um rapaz de movimentos comprometidos, dando a sensação clara de que cairia a qualquer momento. O treinador me disse:

- Ele corria aqui todos os dias e participava de provas pelo Brasil todo. Um dia, sofreu um AVC e ficou meses sem vir, sem andar, sem sair da cama. Mas a força de vontade e a fisioterapia o trouxeram de volta. Vejo ele evoluindo a cada dia que passa. 

Desse dia em diante, olho pra ele com um ar de admiração, e entendo por que o "bom dia" dele ainda sai meio travado (pensando bem, já está ficando menos travado agora).

Na praia não importa quanto temos no banco, onde e como moramos, de que família viemos. Todos se cumprimentam igual, se olham igual, se solidarizam igual. Fico pensando: onde foi que nos perdemos? Por que deixamos de lado esse sentimento bom em tantas ocasiões das nossas vidas?

A praia faz isso: faz a gente refletir e sorver um pouco dessa essência, tentando levar para o resto do dia a brisa da cordialidade e do respeito.

De fato, praia, é bom saber que você está lá sempre que eu precisar, mesmo que eu não queira sequer molhar os pés. Descobri isso tarde, é verdade, mas há uma infinidade de dias pela frente à minha espera. E à sua também! Que tal?