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Quinta-feira

18 de Abril de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

A tênue linha que divide as cores

Petistas são vermelhos, coxinhas são azuis, meninas usam rosa, meninos usam azul, metade do Brasil é vermelha, metade do Brasil é azul, e até o verde-amarelismo da Bandeira passou a simbolizar um discurso partidário e não apenas o que até então representava.

Ao longo dos últimos anos, as cores foram incorporadas aos discursos políticos e ganharam uma relevância que parece só crescer. E quando se pensava que o 1º de janeiro isolaria as cores em seus devidos lugares, vem a ministra reacender um debate que vai muito além das questões de gênero. A declaração de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil, jogou gasolina em uma fogueira que parecia começar a apagar, e que diz respeito, novamente, ao azul e ao vermelho. 

Não se está aqui discutindo se são legítimos ou não todos aqueles selos que ao longo da campanha foram colados pela oposição em Jair Bolsonaro. O que se teme, isto sim, é a força da legião que brota das sombras cada vez que o debate é retomado. Tanto de um lado como de outro, só precisa mesmo de uma Damares Alves por semana para fazer do Brasil um eterno octógono.

O desafio do presidente, mais que cuidar da retomada da Economia e gerar emprego e renda, é reunificar a Nação em torno de um bem maior: o desenvolvimento, a equidade social, o direito de todos terem saúde e educação de qualidade. E sem retroceder nos aspectos da sociedade que já caminharam com as próprias pernas, questões de gênero incluídas.

As redes sociais - sempre elas - têm demonstrado claramente que a eleição não acabou. E pior: muitos se sentem legitimados por esta ou aquela frase dita pelo presidente e seus ministros para tirar da espreita seus próprios pensamentos nada republicanos.

Tempos atrás, assisti estarrecida a fala de um senhor que caminhava pela praia e se indignou com o uso de trecho da areia por uma equipe esportiva. Ordenou às pessoas que saíssem porque a praia era pública, não privada. Como não obteve êxito, sentenciou: "A partir de 1º de janeiro, as coisas não vão mais se resolver no diálogo. A ação será outra".

Oi?

Há muitos riscos atrelados à partidarização dos debates, e o principal deles é deixar na superfície as questões que realmente importam e que têm sido tratadas como cabo-de-guerra. Falta debate. Debate sadio e limpo. Debate em que se fala e se ouve na mesma proporção antes de decidir.

O Brasil tem desafios grandes pela frente, e é importante que não só os azuis e vermelhos tenham consciência disso, mas o próprio presidente e sua equipe, controlando o que dizem na mídia, o que fazem em seus gabinetes, as posturas que adotam em seu dia a dia.

Tudo repercute. 

Debater política faz parte de uma sociedade democrática, mas é muito tênue a linha que divide o debate sadio de uma reação inflamada e em cadeia.

É hora de hastear a bandeira da paz, que é branca, a única cor que realmente importa neste momento.

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