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Segunda-feira

9 de Dezembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

'A desinformação prejudica e é um elemento desfavorável à sociedade'

Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais, em entrevista sobre perspectivas para o jornalismo

Jornalismo de qualidade sempre terá seu espaço na sociedade, especialmente quando o cidadão começa a perceber que da informação séria e bem apurada dependem as decisões que vai tomar, o seu futuro e de seu país. Os conceitos fazem parte do discurso que o jornalista e presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, tem levado a todos os fóruns dos quais participa.

Não foi diferente esta semana, quando abriu o Digital Media Latam 2019, um dos principais eventos sobre a indústria jornalística da América Latina, realizado no Rio de Janeiro. 

A tônica do encontro, que reuniu jornalistas, diretores de empresas de comunicação, criadores de sites e plataformas mundo afora, foi a transformação digital pela qual esse universo passa e o que tem feito para manter-se vivo e sustentável em um universo bastante dominado por fake news e “caçadores de clicks”, como disse Rech em seu discurso.

O que acontece no Brasil não é muito diferente do que vem ocorrendo no resto do mundo. Este mês, o jornal norte-americano The Wall Street Journal lançou uma campanha institucional que desafia os leitores a lerem com profundidade textos detalhados e não apenas os conteúdos considerados iscas fáceis de clicks nas redes sociais.

O objetivo da campanha é engajar e reter assinantes digitais, além de conquistar novos leitores pagantes. Para Marcelo Rech, o consumidor de notícias sempre estará disposto a pagar por um conteúdo, desde que tenha confiança em quem o produziu e relação com a marca ou grupo de comunicação.

Todos os grupos de comunicação estão buscando uma nova forma de monetizar o jornalismo que produzem. O senhor acredita que este seja o principal desafio do momento?

Sem dúvida. O ponto central de qualquer atividade jornalística é conseguir se diferenciar a um ponto de ser valorado, pago pelo usuário, pelo consumidor de notícias. Como qualquer outro produto, a informação tem que ter por parte do público uma percepção de sua relevância. E isso não acontece por gravidade, é preciso ter uma motivação extra, adicional. Muitas vezes, a disposição das pessoas quererem pagar por este conteúdo está ligada a essa percepção de propósito, de relevância e também de associação desse consumidor de notícias com a marca.

As pessoas não precisam concordar com tudo que está escrito no jornal, com suas opiniões, mas entender o significado dele na comunidade. Nesse sentido, eu vejo que os jornais locais, regionais que têm uma clara diferenciação de conteúdo, ou seja, que trazem um conteúdo único, de credibilidade, de pluralidade local, onde não é possível encontrar em mais nenhum outro veículo, têm uma perspectiva de valoração bastante favorável.

É apenas uma impressão ou a velocidade das transformações pelas quais passa a mídia tradicional se acelerou bastante nos últimos anos?

Veja, antes a gente precisa dizer que essas transformações estão ocorrendo em todos os setores. O que nos diferencia – e eu acho que isso é uma vantagem dos jornais – é que nós estamos sendo disruptados há 25 anos. Nós estamos entre os primeiros a sofrerem a disrupção. Veja a seção de classificados, que era uma das principais fontes de receita dos jornais. De repente sofreu uma grande transformação assim que surgiu a internet. Os jornais estão há um quarto de século sofrendo essa disrupção e se reinventando em muitas frentes, em muitos formatos.

E isso está acontecendo em outros setores mais recentemente...

Exatamente: no sistema bancário, na hotelaria, nas agências de turismo, nas imobiliárias. Todos os setores ou estão sofrendo ou vão sofrer esse processo. A nossa diferença é que nós já sabemos lidar com ela.

Já sabemos?

Nós estamos há 25 anos nisso. Temos mais experiência do que os setores que entraram mais recentemente. Já entendemos que ela é inevitável. Para enfrentá-la é preciso entendê-la, se adaptar e tirar vantagem sempre que possível. E como é possível? Um dos aspectos é que o jornal físico tem uma limitação geográfica e um custo enorme para ser distribuído. A transformação digital faz esse custo desaparecer e essa é uma vantagem. Uma edição digital de qualquer jornal pode ser distribuída ao mundo inteiro. Não há mais limites. Você chega a muito mais gente, um público infinito. Nosso trabalho hoje tem uma amplitude muito mais significativa. 

Como é que o senhor vê a imprensa brasileira daqui dez anos? Que cenário podemos prever?

Acho que vão conviver marcas generalistas, tradicionais, que sempre serão importantes por cobrirem o País de forma ampla, com todos os assuntos, como um grande supermercado de informações, e marcas cada vez mais nichadas, cada vez mais especializadas, cada vez mais verticais.

E os jornais locais?

Os jornais locais serão ainda mais locais e esse é um ponto de diferenciação, de relevância. E vão surgir cada vez mais marcas especializadas em determinados setores, conteúdos específicos de saúde, direito, esportes, gastronomia, focados em temas únicos, entende? Esse grande ecossistema da comunicação terá veículos generalistas, veículos regionais muito qualificados e focados justamente porque conhecem o seu público, e também os veículos de nicho, os especializados em assuntos únicos. Esse vai ser um grande ecossistema de anteparo para conter a desinformação no Brasil e no mundo. Esse conteúdo, feito por profissionais, com certeza terá pessoas dispostas a pagar por ele.

O senhor acha mesmo que em algum momento essas pessoas vão ter essa percepção do conteúdo de qualidade?

A gente tem que olhar para as tendências, avaliar o presente e pensar no futuro. Para onde ele aponta? Ele aponta primeiramente para uma tendência acentuada de redução do uso das redes sociais pelas novas gerações. As redes sociais estão ficando uma coisa de “tio” e “tia”. Adolescentes de 12, 13, 15 anos já têm uma desconexão com essas redes. Além disso, as pessoas começaram a se dar conta de que a desinformação é um elemento desfavorável à sociedade. Eu acredito que as pessoas já estejam parando para analisar direito antes de compartilhar qualquer coisa. Muita gente já questiona se é verdade ou não aquilo que recebe pelo celular. Isso aponta para uma tendência de revalorização de quem faz da verdade o seu modo de negócio, que são os veículos de comunicação sérios, o jornalismo profissional.

Esse movimento de volta está mais presente em outros países?

Sim, em alguns países esse processo já está mais avançado. O New York Times chegou a quase 5 milhões de assinantes digitais e impressos em outubro. Isso é algo inimaginável para um jornal que no auge do impresso vendia pouco mais de 1 milhão de exemplares. O mesmo acontece com outros jornais que têm verificado um crescimento de suas assinaturas digitais. As pessoas estão se voltando para essa necessidade de buscar um porto seguro em termos de informação. Isso elas só encontram em marcas profissionais e não nas redes sociais.

Que recado o senhor daria para o jovem jornalista, aquele que está saindo da faculdade neste momento?

Primeiro, que a nossa profissão de jornalista nunca foi fácil. Ela não era mais fácil no passado. Você tinha muito menos mercado de trabalho. E as dificuldades econômicas também estavam presentes. Hoje há um leque de atuação para o jornalista, em assessorias, órgãos públicos e todo o universo digital. As oportunidades de trabalho hoje são muito maiores do que antigamente. Da minha turma de formatura de 81 só tem uns 3 ou 4 trabalhando na área.

O segundo aspecto é que as condições também melhoraram muito. Até os anos 80, era comum as pessoas terem dois ou três empregos. As organizações passaram a valorizar mais esses profissionais e as condições melhoraram. Por fim, acho que o mais importante é o propósito, a relevância. Nunca foi tão importante e necessária a figura do jornalista. Mas é preciso fazer a opção entre o jornalismo e o ativismo.

Como assim?

O profissional tem que decidir se vai ser um ativista de suas causas pessoais e ideológicas ou se vai ser um jornalista testemunha da sociedade que o remunera, buscando isenção, independência e não fazendo disso um ativismo político. Se ele quer fazer ativismo, e é legítimo, não pode ser no jornalismo, mas em um partido político, sindicato ou outras entidades.

E o jornal impresso?

É o consumidor que decide. Enquanto houver leitores que se identificam com eles, os jornais impressos vão existir para sempre. Mas são as pessoas que vão dizer isso. Essa relação tem a ver com a disposição do leitor e também com os fundamentos do veículo. Alguns veículos conseguem estabelecer uma diferenciação tão grande que as pessoas se dispõem ainda mais a pagar por eles. Isso é normal e também tem a ver com a história desse veículo, a tradição e a afinidade do público. Importante dizer que o centro das atenções de um jornal não é necessariamente imprimi-lo, mas produzir conteúdo de qualidade. Levar informação correta é o ponto de partida para que qualquer cidadão tome decisões corretas sobre sua vida, sobre o futuro do país.

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