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Terça-feira

12 de Novembro de 2019

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

'É um ciclo que se encerra'

Ótica de 57 anos encerra suas atividades no Centro de Santos

Quando eu era ainda criança, 7, 8 anos, ninguém lá em casa usava óculos, mas ir "à cidade", como chamávamos o passeio ao Centro de Santos, incluía "namorar" algumas vitrines, que não eram necessariamente as de brinquedos. Ali na Dom Pedro II, ao lado da então "Nossa Caixa, Nosso Banco", já tinha a Ótica Modelar, onde eu e meu irmão parávamos para ficar olhando as armações de criança, coloridas e personalizadas, e os óculos de sol que um dia, juntando bastante mesada, levaríamos para casa. Chamava a atenção a imensa armação verde fincada na fachada, ao lado do letreiro, que ainda hoje está lá.

Além da Modelar, outros ícones do comércio santista estavam lá no roteiro de cada 11 entre 10 crianças que iam com os pais ao centro no dia do pagamento: a Sears, na Amador Bueno, que ia de ponta a ponta até a São Francisco; a Casa X, de artigos esportivos, onde meu irmão comprou inúmeros Kichutes pretos e eu, os bons e velhos Congas, e a Lojas Brasileiras, que tinha a melhor banana split do pedaço. Na época do Natal, minha mãe passava longe com as duas crianças da Fernando´s Brinquedos. Ela sabia que eu e meu irmão já iríamos fazer os pedidos antes mesmo do Papai Noel dar a deixa pra receber as cartinhas.

Na semana da criança, a Fernando´s e outras lojas patrocinavam várias atividades recreativas na Praça dos Andradas, como corrida de velotrol, uma espécie de triciclo de três rodas laranja com rodas azuis. E ali também, naquela velha e arborizada praça, tirávamos fotos 3x4 nos lambe-lambe que enfiavam a cabeça debaixo do saco e, em pouco tempo, vinham lá com os retratinhos da gente. Com o bicho preguiça assistindo tudo do alto, pendurado nas centenárias árvores.

Em mais de 40 anos, o cenário mudou um bocado. Do bicho preguiça que não tem mais ali seu habitat, à Nossa Caixa, Nosso Banco que agora virou Banco do Brasil, os personagens são outros. Nem melhores, nem piores. Apenas outros. Muita gente da minha idade viu essa transformação: uns como consumidores, outros do outro lado do balcão. Seu Wilson está no segundo grupo.

Ele e a mulher, Vilma, estavam do lado de dentro do balcão da Ótica Modelar, aquela da armação gigante junto ao letreiro. A ótica foi fundada em 1962, quando seu Wilson tinha apenas 33 anos. Esta semana, o filho Rogério, de 44, me mandou um whatsApp: "Arminda, se quiser passar na loja à tarde...fecharemos na sexta".

Seu Wilson deu início a Ótica Modelar, quando  ainda tinha 33 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Eu já sabia que a Modelar ia fechar porque, semanas antes, a promoção de 50% de desconto já parecia ser um ponto fora da curva para uma época em que desconto só mesmo com muita conversa. Fui à loja me despedir da família.

Há várias maneiras de você interpretar o encerramento de um comércio tão antigo, mas da Modelar nenhuma dessas formas pareceu incluir a tristeza ou a nostalgia. Como tantos outros negócios impactados pela chegada da internet, a família decidiu vender, agora, só por e-commerce, e é Rogério quem vai tocar a continuidade do ramo. Mas pesaram, sim, alguns fatores externos e nada republicanos:

- Muitos preferem comprar nos camelôs, que vendem com lentes já instaladas. Não é nada saudável, porque você precisa ir ao oftalmo antes de usar óculos. E pior: compram lá, logo veem que o produto é de baixa qualidade, e depois vêm aqui pra gente consertar ou trocar parafusos, diz dona Vilma.

A concorrência desleal também impacta quem trabalha direito, porque nem sempre o consumidor tem noção do serviço que está sendo prestado. Dona Vilma conta que algumas óticas que vendem armações muito baratas ainda oferecem o "médico" antes de prescrever a lente. "Na verdade não tem médico algum. É alguém que se põe a fazer testes oculares pra ver grau, curvatura do olho, distâncias e tudo o mais. Nunca fizemos nada disso. Médico é médico, ótica é ótica".

A Modelar fecha as portas nesta sexta-feira, dia 28. Seu Wilson não é de muito falar, mas tem uma cabeça boa para quem acabou de completar 90 anos. "Eu nasci no meio da crise (1929) e estou parando de trabalhar no meio de outra", brinca.

Generalizações nunca são boas, e quando uma loja fecha logo muitos se põem a apontar causas simplistas e genéricas. Foi a crise? Foi a falta de sucessores para continuar o negócio? Foi a mudança de hábitos de consumo? Foi a falta de modernização da loja, seus produtos e atendimento? Foi a inadequação do negócio aos novos tempos? Sim para todas. Não para todas. Depende....cada caso é um caso.

Mas sim, é sempre possível pensar em ações para o Centro de Santos que atraiam mais público e devolvam ao bairro o glamour comercial de antigamente. A Prefeitura está prometendo algumas em seu pacote de Santos Criativa, e é possível pensar que, a médio e longo prazos, elas façam efeito. Também é preciso destacar a chegada de lojas novas, como O Barracão, Lojas Mel, Caedu, Lugano....

Mas não há como negar que a Prefeitura precisa e pode fazer mais por esse comércio tão antigo e pioneiro: manter a limpeza das ruas e calçadas, garantir segurança, mais rigor com os estabelecimentos que, fechados, mantêm suas fachadas decrépitas e inseguras. Acima de tudo, é preciso estabelecer um diálogo permanente com os comerciantes, entender suas demandas e até onde a correção de problemas públicos pode impactar positivamente em seus negócios.

Para a Modelar esse debate não importa mais. Quem passar pela D. Pedro II a partir de segunda-feira não vai mais encontrar o seu Wilson, a dona Vilma e o Rogério atrás do balcão. Sorte de quem os conheceu ao longo desses quase 60 anos e com eles aprendeu o valor do bom atendimento. Esta semana, quando fui lá pela última vez, fiz mais do que me despedir e desejar ao Rogério sorte no e-commerce. Guardei na memória cada detalhe da loja: as fotos antigas na parede, o velho balcão de madeira com suas gavetinhas, os objetos retrô que o Rogério incorporou ao cenário, e, principalmente, o rosto de cada um daqueles que, por tanto tempo, ajustaram armações aos rostos, deram palpites em cores e formas, elevaram a auto-estima de quem envelheceu e começou a usar óculos. Como tantos outros estabelecimentos antigos, a Modelar vai ficar no imaginário de centenas de crianças que, nos idos dos anos 60, 70, 80, iam "à cidade" com os pais nos dia do pagamento.

Seu Wilson, dona Vilma e Rogério, vocês cumpriram muito bem esse papel. Mudam os ciclos na relação consumidor-fornecedor, mas jamais vai mudar a relevância do bom atendimento e da empatia que vocês plantaram entre a clientela.

Obrigada!

Rogério, Dona Vilma e Seu Wilson, família que esteve à frente da Ótica Modelar (Foto: Arquivo pessoal)
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