EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

18 de Novembro de 2019

Sucesso na Netflix, ator de São Vicente fala sobre carreira artística: 'não busco ser rico'

Ex-morador da Área Continental, Christian Malheiros estrelou série Sintonia, produção brasileira de Kondzilla na plataforma de streaming

Um jovem de São Vicente deixou a Área Continental para brilhar no mundo artístico. Com passagens nos palcos, cinema e seriado, Christian Malheiros, de 19 anos, viu sua vida mudar em pouco tempo. O protagonista da série Sintonia, da Netflix, fala em entrevista para A Tribuna On-line sobre trajetória e planos futuros: “não busco ser rico ou famoso”, diz.

A série Sintonia retrata a vida de três jovens amigos moradores de uma favela fictícia chamada de Vila Áurea. A trama foi dirigida por Kondzilla, o dono do maior canal de música do mundo, responsável por lançar grandes nomes do funk nacional.

Personagem de Christian, Nando tem uma mulher e uma criança pequena. Preocupado com o sustento da família, o jovem se envolve cada vez mais no mundo do tráfico. Mas, a realidade de uma comunidade pobre não é algo que se limita apenas ao protagonista.

Ex-morador do bairro Vila Nova na Área Continental, Christian conta que nunca teve o sonho de ser artista quando pequeno. Ele conheceu o mundo artístico aos 9 anos, por meio de aulas de teatro e danças na escola onde estudava. "Eu já estava há alguns anos e já levava muito a sério. Foi aí que eu vi que era aquilo que eu queria para minha vida", explica.

Com a decisão, veio a preocupação familiar. Filho de uma doméstica e de um operário, Christian afirma entender o receio dos pais quanto a profissão. "Aqui não tem mercado de trabalho para artistas. Então você não quer morrer sabendo que seu filho está enfrentando perrengue", comenta.

Ex-morador da Área Continental, Malheiros relata que pais ficaram apreensivos quanto a carreira de ator (Foto: Reprodução/ Instagram)

Com muito esforço, conseguiu entrar em um curso de teatro em Santos, dando o start em sua carreira. A oportunidade de estrelar no filme Sócrates bateu em sua porta. O produtor americano Ramin Bahrani estava garimpando talentos em periferias da região até que conheceu Christian enquanto dava aulas em uma escola pública. "Ele pediu para que eu fizesse o teste e eu respondi que precisava pensar. Até que ele começou a gritar comigo no telefone por querer pensar. Resolvi aceitar e foram dois meses só de testes até que fui chamado", relembra.

Alvo de elogios em festivais brasileiros, o longa produzido pelo Instituto Querô, de Santos, será lançado no dia 26 de setembro. Sócrates trata sobre a história de um jovem negro homossexual de 15 anos, morador da periferia de Santos, que precisa sobreviver sozinho após a morte da mãe.

O filme passou por festivais internacionais como o de Los Angeles, Montreal e Woodstock, ganhando destaque devido ao baixo orçamento. No Film Independent Spirit Award, considerado o Oscar dos filmes independentes, Malheiros concorreu ao prêmio de melhor ator ao lado de nomes como Ethan Hawke (estrela do filme Assalto à 13ª DP) e Joaquin Phoenix (o próximo Coringa).

Christian ganhou destaque e concorreu com estrelas do cinema internacional com o papel de Sócrates (Foto: Divulgação)

Novos ares

Após as gravações, Christian decidiu se aventurar na selva de pedra. Sem emprego, ele se mudou para São Paulo e passou a entregar currículos enquanto tentava entrar no mundo do teatro. Após o sucesso da peça Fedra, a produção de elenco da Netflix o procurou e depois dos testes o vicentino ganhou o papel de protagonista.

O episódio piloto da série foi compartilhado no Youtube e atingiu mais de 100 mil visualizações em apenas três horas. As gravações escondidas e o assédio ainda são coisas novas para Christian, que afirma ser uma pessoa privada e não querer "deixar a fama subir à cabeça".

O jovem revela não buscar ser rico ou famoso. Sua entrega e compromisso com a atuação são características que perduram independentemente do formato artístico.  “Uma coisa que eu sempre almejei na minha profissão é usar a arte como uma ferramenta de transformação de vida. Seja em uma série da Netflix ou fazendo uma peça dentro de um ônibus. Essa busca é algo que vai perdurar até o final da minha vida. Não cheguei aonde eu quero porque só atingirei quando eu morrer”, finaliza.

Tudo sobre: