Estudante de São Vicente realiza vaquinha para manter sonho de ser médico

A dívida de Michael Denner com a instituição de Ensino Superior chegou a R$ 101 mil; ele luta para ser o primeiro médico da família

Em vez de estar em um hospital aprendendo e ajudando médicos, como os colegas de classe, o estudante do 5º ano de Medicina Michael Denner Nunes Lino, 26 anos, se vê impedido de frequentar o curso e aposta em uma vaquinha on-line para voltar às aulas. Devido à pandemia, os pais não aguentaram manter mensalidades e rematrícula em dia e têm dificuldades para renegociar valores com a Universidade Metropolitana de Santos (Unimes). Alvo de cobrança judicial, a dívida chega a R$ 101 mil.

“É uma situação difícil de descrever. Sinto como se tivesse na cara do gol e algo vem me segurando. Estou próximo de me formar, mas desde segunda-feira fui proibido de frequentar o curso. No 5º e no 6º anos, a gente atua no hospital acompanhando médicos”, conta o universitário.

Para a família, de origem simples - os pais começaram como técnicos em enfermagem e batalharam para pagar faculdade enquanto trabalhavam até virarem enfermeiros -, a notícia foi um choque, conta a mãe, Scheila Regina Nunes Silva, 46 anos. “É uma dor para toda a família. Essa balançada do barco assusta muito”.

Michael sonha ser médico desde os 5 anos, quando acompanhou a mãe ao trabalho. “Ver o trabalho dela fez meus olhos brilharem. Hoje não penso em fazer outra coisa. Quero ser neurocirurgião”. Aos pais, restou acompanhar o desejo por anos até as portas se abrissem para transformá-lo em realidade.

“A gente vibrava com esse sonho. Ele tentou universidade pública, mas não conseguia concretizar. Quando passou no vestibular, eu e minha esposa conversamos e sabíamos que seria um desafio. Mas a gente falou para ele ir e que faríamos todo esforço para isso”, diz o pai Luciano Silva, 48 anos.

Para Michael, além do sonho, estava em jogo o orgulho em ser o 1º médico da família. “Provavelmente meu trisavô tenha sido escravo e meu avô trabalhou em fábrica. Meus pais fizeram faculdade de Enfermagem trabalhando e eu estou fazendo Medicina. É uma ascensão relativamente rápida, mas com muita luta. Vejo como conquista histórica. Na faculdade, só eu e outras três meninas somos negros”.

Para Michael, além do sonho, estava em jogo o orgulho em ser o 1º médico da família (Foto: Matheus Tagé/AT)

Luta 

A batalha para custear a mensalidade de R$ 7,4 mil ocorre desde o início das aulas. Como o curso é integral, Michael não tem como trabalhar. Sem contar que ele tem duas irmãs de 11 anos e outros dois irmãos, do casamento anterior do pai.

“Quando o Michael começou a falar que queria fazer Medicina, a gente começou a fazer uma poupança. Esse dinheiro manteve a faculdade até o final do 3º ano. Depois, a situação começou a complicar. A gente pagava um semestre e negociava o outro”, conta a mãe.

Na última renegociação, a Unimes propôs um parcelamento em três vezes de R$ 20 mil, com o 1º pagamento tendo um acréscimo de R$ 7 mil devido à rematrícula. Pagamos essa inicial, mas não a segunda e a terceira. A faculdade ainda cancelou a bolsa de 30%. Foi desesperador”.

Na pandemia, a situação ficou ainda mais difícil. “Meu pai não conseguiu trabalhar mais como antes e entrou menos dinheiro. Virou uma bola de neve”.

Vaquinha on-line tenta arrecadar ao menos R$ 85 mil

Hoje, Michael está com as parcelas do 2º semestre de 2019 e do 1º de 2020 em atraso, o que somaria R$ 85 mil. A dívida foi para o setor jurídico e, agora, está em R$ 101 mil, com honorários advocatícios. Para ajudá-lo, a namorada Letícia Nano, 21 anos, montou uma vaquinha on-line.

Até agora, foram arrecadados R$ 18,8 mil pelas redes sociais, por meio de 136 apoiadores. Quem quiser ajudar pode participar ao clicar aqui.

“É a fé que está me mantendo no caminho de acreditar sempre e vendo que muita gente tem me ajudado nas últimas semanas. Só tenho a agradecer e acreditar que logo estarei de volta à faculdade e ao hospital, podendo retribuir a ajuda que estou recebendo”, encerra o estudante.

A Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) afirma estar ciente do impacto da pandemia, que trouxe dificuldades a empresas e famílias, destacando em nota que conta com “ajuda de mais de mil funcionários e prestadores de serviços”. Garante que a situação dos alunos que estão inadimplentes também consta entre as preocupações da universidade, “sendo oferecidas condições diferenciadas, a depender do caso e considerando, também, o período de inadimplência dentro do período pandêmico”. No caso de Michael, a Unimes afirma que “está aberta à negociação para que haja um mínimo denominador comum suficiente para atender as expectativas do aluno, sem deixar de custear o serviço educacional”.

 

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