Santos fica em alerta para avanço do mar pela cidade após catástrofe no Rio Grande do Sul

Município se mobiliza para evitar invasão das águas

Por: Anderson Firmino  -  15/05/24  -  12:40
Sacos de areia (geobags) ajudam a reduzir a energia das ondas que atingem o calçadão
Sacos de areia (geobags) ajudam a reduzir a energia das ondas que atingem o calçadão   Foto: Alexsander Ferraz/AT

A tragédia climática no Rio Grande do Sul, que já matou mais de 140 pessoas e deixou o País consternado, jogou luz sobre uma questão básica: quão prontos estamos para lidar com situações de extrema gravidade?


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A hipótese de que o nível do mar em Santos possa estar 55,84 centímetros (cm) mais alto no final deste século, como diz um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), em conjunto com a Human Climate Horizons (HCH, Horizontes Climáticos Humanos, em tradução livre), assusta. Porém, um programa piloto, que deve ser ampliado, deu mostras que pode colaborar para amenizar efeitos: os geobags, sacos com areia submersos.


“Conforme o nível do mar vai subindo, falando dos eventos extremos, não há uma inundação estática, mas dinâmica. O nível sobe um pouquinho; as ondas começam a incidir na praia, numa porção mais alta, arrancam a areia, a depositam na parte submersa, e a erosão é muito maior do que essa diferença de nível — isso, pela ação das ondas sobre o estoque de areia da praia. Esse impacto não é o de uma inundação. É aí que a obra entra: diminuindo a energia da onda, dificulta esse processo de rertirada de areia”, diz o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Tiago Zenkler Gireli. Ele é um dos responsáveis pela colocação das 49 geobags na Ponta da Praia, em 2018.


Eficácia

As barreiras submersas têm 275 metros de comprimento, em formato de L. Elas estão em frente à praia, a partir da altura da Rua Afonso Celso de Paula Lima. Seu objetivo é diminuir a força das ondas. A estrutura instalada paralelamente à praia, de 245 metros de extensão, tem o objetivo de ajudar a armazenar areia. Como resultado, especialistas apontaram um aumento de 8,9 cm de altura de areia no local onde foram instalados os geobags.


Por isso, Gireli reforça a expectativa pela ampliação do projeto das geobags, agora em parceria com a Autoridade Portuária de Santos (APS), Por causa de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a estatal se comprometeu a expandir o projeto, com objetivo de propor soluções para recuperação das praias de Aparecida e Embaré.


“Os geobags são um mecanismo com capacidade de adaptação. Se a maré subir 20 cm, consigo preencher e altear ele (elevar a altura) depois de anos instalado. Vai ter um limite, mas há essa flexibilidade de ser alteado para continuar a ser efetivo”, reforça.


Plano

O secretário de Meio Ambiente, Marcio Paulo, reforça que o relatório divulgado pela ONU trabalha com a possiblidade do que poderia acontecer numa eventual situação de subida de maré. Mas não quer dizer que uma emergência climática extrema como essa aconteça da forma prevista.


“Tudo isso são cenários desenhados sob a possibilidade de acontecer. Não temos uma bala de prata, mas um plano de ação claro”, aponta. Ele se refere ao Plano de Ação Climática de Santos (Pacs), lançado em janeiro de 2022, com 50 metas entre 2025 e 2050 (veja destaque).


“Conhecemos o risco maior, (...), mas temos prevenção, resiliência e adaptabilidade muito maior. Por isso, nossa revisão do Plano Municipal de Emergência Climática, em 2021, resultou no Pacs”, afirma.


Para amenizar o efeito do avanço do nível do mar, a melhor saída seria adotar o que se chama de soluções baseadas na natureza
Para amenizar o efeito do avanço do nível do mar, a melhor saída seria adotar o que se chama de soluções baseadas na natureza   Foto: Alexsander Ferraz/AT

Saída na natureza

Para amenizar o efeito do avanço do nível do mar, a melhor saída seria adotar o que se chama de soluções baseadas na natureza. Principalmente, conservando a vegetação nativa onde ainda existe e a biodiversidade relacionada a ela, a fim de amortecer o impacto da água. “A gente tem que começar a se preparar agora.”


É o que recomenda o biólogo Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Se ainda tem vegetação natural, não pode retirar. Se é um espaço em que é possível restaurar, replantar, é a melhor solução baseada na natureza possível”, diz.


Um bom exemplo local, cita o biólogo, é Bertioga. Ali, a restinga, um tipo de vegetação rasteira após a faixa de areia ao lado do mar, amortece a energia da água e o impacto de ondas e ressacas. Assim também ocorre em regiões de mangue, outro ambiente natural da região.


Em outras áreas da região, afirma, “nós retiramos essa cobertura e colocamos prédios, casas, concreto. (...) Um caminho é desalojar as áreas construídas de determinada área. Isso vale para as palafitas, que é uma discussão comum, e para as áreas prediais. E, aí, restaurar (a vegetação). (...) Não é simples, mas é uma solução que deve, em algum momento, ser considerada”.


“A água cobra de volta o seu lugar. O mar não está invadindo a Cidade. A Cidade invadiu um espaço de transição que era da água do mar, que era desses momentos de ressaca. Eles, naturalmente sempre existiram: só estão mudando de frequência devido à mudança de clima”, observa.


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