Em 7 de dezembro de 1927, o terreno da estreia do Santos FC virou a Igreja do Imaculado Coração de Maria (Reprodução/Google Maps) Santos, quarta-feira, 7 de dezembro de 1927. Era tarde de verão, com um calor leve e benevolente, quando uma movimentação incomum tomou conta da Avenida Ana Costa, justamente no trecho onde outrora se estendia um dos primeiros campos de futebol da cidade - do extinto Internacional - que fora cenário da partida inaugural e histórica do Santos Futebol Clube. Contudo, desta vez, não era a paixão esportiva que agitava o espaço: era a fé que chamava o povo. Sete anos antes, em 1920, o velho campo fora desativado e sua área adquirida pela Congregação dos Missionários do Imaculado Coração de Maria, cuja paróquia, criada em 1915, atendia os fiéis da Vila Mathias, do Macuco, da orla e das novas avenidas que se projetavam rumo à Ponta da Praia. Durante uma década, enquanto as obras não avançavam ao ponto desejado, a comunidade encontrara abrigo na Capela de Santa Cruz, na Rua Senador Feijó, 444, que serviu como matriz provisória desde o início da empreitada. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Foram anos intensos, marcados por rifas, “tômbolas”, campanhas em livros de ouro e visitas constantes dos missionários às famílias, tudo para angariar recursos para a construção do grande templo sonhado. E o sonho, enfim, tomara forma. Após sete anos de trabalho contínuo, o majestoso santuário dedicado ao Imaculado Coração de Maria abria suas portas, ainda inacabado, é verdade, mas plenamente apto a acolher missas, batizados, casamentos e a vida religiosa de uma paróquia que crescia com vigor junto à própria cidade. A festa que se anunciava naquele 7 de dezembro celebrava a persistência de uma comunidade inteira. Desenho do prédio em 1924 (Reprodução) A inauguração O evento se iniciou com um cortejo simbólico, partindo da matriz provisória em direção à Avenida Ana Costa. A procissão, iniciada às 18 horas, reuniu todas as associações da paróquia e uma ingente multidão de fiéis, que deixaram a antiga Capela de Santa Cruz conduzindo vistosos andores e todas as imagens destinadas à nova matriz. Presidiu o ato sua excelência reverendíssima, o bispo Dom José Maria Parreira Lara. A procissão avançou harmoniosa, embalada pela banda do Corpo de Bombeiros, que alternava dobrados festivos com os cânticos piedosos dos devotos. À frente, o bispo caminhava ladeado por autoridades civis e religiosas que testemunhavam a força de uma comunidade em plena expansão. A cada passo, a expectativa crescia e, quando as portas do templo se fecharam para a bênção ritual, pareceu que toda a cidade prendeu a respiração, aguardando o instante em que o santuário se revelaria como um novo coração pulsante na avenida mais bela de Santos. Minutos depois, ao ser franqueado ao público, um turbilhão de vozes preencheu o interior do templo, e os hinos entoados com fervor mostraram que, naquele dia, Santos ganhara um símbolo de devoção e identidade. Batismo coletivo de japoneses Na manhã do dia seguinte, 8 de dezembro, logo às seis horas, o santuário recém-inaugurado voltou a ser tomado por grande número de fiéis. Muitos buscaram o sacramento da penitência e participaram da primeira missa celebrada por Dom José Maria Parreira Lara, recebendo de suas mãos a sagrada comunhão. As partículas distribuídas foram inúmeras ao longo de todas as celebrações que se seguiram durante o dia, demonstrando a intensidade devocional daquele momento histórico. Planta original do projeto do templo, assinada pelo arquiteto polonês Georg Przirembel (Reprodução) Às dez e meia, a missa cantada — dirigida pelo padre José Andia — reuniu novamente a comunidade, com o coro paroquial exibindo impecável precisão e elegância artística. Mas foi após o meio-dia que ocorreu o primeiro grande ato paroquial da nova matriz: o batismo de 86 japoneses, acolhidos pela comunidade e apadrinhados por figuras de destaque da sociedade santista. Organizados em cinco grupos, foram batizados pelo bispo diocesano, pelo padre provincial e por outros sacerdotes, numa cerimônia que se revelou imponente e profundamente simbólica. Coube especial reconhecimento à dedicada professora Maria Mathilde França de Paula Ramos, cujo trabalho junto à escola dos japoneses foi decisivo para a realização do ato. Ao cair da noite, às sete e meia, o templo recebeu ainda a cerimônia de admissão das novas Filhas de Maria, concluindo com brilho um dia marcado pela fé, pela integração comunitária e pela afirmação da nova paróquia como espaço vivo de espiritualidade e acolhimento. Referência religiosa Ao longo dos anos, o templo do Imaculado Coração de Maria consolidou-se como referência religiosa e comunitária na cidade. Erguido graças ao empenho dos missionários claritianos e ao apoio dos fiéis, tornou-se espaço central para a vida paroquial e para a organização social da comunidade da Vila Mathias. Hoje, o prédio quase centenário funciona como repositório de milhares de histórias: batizados, casamentos, primeiras comunhões, celebrações familiares e encontros comunitários que marcaram gerações. Mantém-se ativo, preservado e integrando cotidianamente a trajetória religiosa e cultural de Santos. Santos FC Uma das curiosidades mais marcantes sobre o local onde hoje se ergue a Igreja do Imaculado Coração de Maria é o fato de o templo ter sido construído exatamente sobre um antigo campo de futebol — o primeiro da cidade — pertencente ao extinto Internacional. Foi ali que o Santos Futebol Clube, fundado poucos meses antes, em 14 de abril de 1912, disputou a primeira partida de sua história, em 15 de setembro daquele ano, derrotando o Santos Athletic Club (Clube dos Ingleses) por 3 a 2. Pedra Fundamental As obras da igreja tiveram início em 7 de novembro de 1920, em cerimônia presidida pelo arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, que benzeu a pedra fundamental e oficializou o começo da construção do templo. “Instagramável” Em 11 de dezembro de 2005, a Paróquia do Imaculado Coração de Maria comemorou seus 90 anos com uma missa às 18 horas, seguida da inauguração da escultura Cuore, criada pelo designer Ricardo Campos Mota (Rica). O monumento rapidamente se tornou um símbolo da igreja e pode ser considerado um dos primeiros pontos “instagramáveis” de Santos — ainda que o termo só ganhasse popularidade anos depois. Projeto de renomado polonês A Igreja foi projetada pelo arquiteto polonês Georg W. E. Przirembel, um dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Uma de suas obras é o Palácio Boa Vista (1938), residência oficial dos governadores de São Paulo em Campos do Jordão.