Caminhada: Engenho dos Erasmos é um dos roteiros de conexão da história e da cultura negras na Cidade (Caio França/Divulgação) Santos, uma das primeiras cidades a abolir a escravatura — antes mesmo da Lei Áurea, de 1888 —, também carrega marcas profundas de apagamento histórico: locais e personagens centrais do movimento negro foram deixados à margem por anos. É a partir desse cenário que o Mochilando Afroculturas, criado pela guia de turismo Augusta França, busca resgatar e valorizar narrativas na região. Santos foi uma das principais portas de entrada e circulação de pessoas escravizadas no País. Em 1799, elas representavam quase 50% da população da Vila de Santos e desempenharam um papel fundamental na formação histórica da Cidade. “Existem registros sobre essas pessoas, mas não se fala sobre a história da população negra aqui”, afirma Augusta França. Por isso, criou, em 2022, seu projeto de contracultura. Augusta diz que seu ativismo e sua paixão pela Cidade a motivaram a iniciar uma reparação histórica “com o propósito de nós, pessoas pretas, contarmos a nossa própria história”. A declaração dela não é uma questão isolada: segundo o Mapeamento do Ecossistema do Afroturismo, feito no ano passado pelo Ministério do Turismo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 67,2% dos empreendedores do setor têm como principal motivação a valorização da identidade e da cultura afro-brasileira. “É o nosso olhar, e não, a história contada pelo colonizador”, afirma Augusta. Em 2022, ela criou o primeiro roteiro da agência, a Caminhada Quilombos Históricos de Santos. “Conforme eu vou estudando e pesquisando, já começo a traçar os roteiros para poder trazer à tona essas narrativas históricas”. Hoje, a iniciativa tem percursos, fixos e eventuais, que conectam história e a cultura negra da Cidade. Augusta lidera a agência ao lado do marido, Léo de Oliveira (à esq.), e com participação de um de seus filhos, Caio de França Oliveira (à dir.) (Arquivo Pessoal) Referência Antes de se tornar uma das principais referências do afroturismo na região, Augusta seguiu outros caminhos. Após ter atuado por anos como dona de casa, sua vida mudou ao começar a faculdade de Relações Públicas, aos 40 anos. “Daí que eu fui me tornar ativista, entrar para o movimento negro, para aprender sobre os meus direitos e defender meus filhos do racismo estrutural”. Depois, trabalhou como secretária na Estação da Cidadania de Santos. Em 2018, ao participar de um evento do Sesc em São Paulo focado em patrimônio cultural e caminhadas de afroturismo, ela se encantou com a experiência. Percebendo que Santos tem vasto patrimônio histórico ligado à presença negra sem visibilidade, Augusta decidiu aprofundar seus estudos no tema. Em 2019, após se aposentar, iniciou um curso técnico em Guia de Turismo, marcando o início de sua formação na área. No Mochilando Afroculturas, desde 2022, Augusta lidera a agência ao lado do marido, Léo de Oliveira (à esq.), e com participação de um de seus filhos, Caio de França Oliveira (à dir.). Na Vila Mathias, visita ao local onde foi o Quilombo do Pai Felipe (Caio França/Divulgação) Afroturismo começa a ter apoio O movimento começa a ganhar respaldo institucional. Em 2022, o edital Percursos Negros, primeira chamada pública nacional de fomento ao afroturismo, mapeou mais de 100 iniciativas no País. Apesar do crescimento de 28% do empreendedorismo negro no Brasil entre 2012 e 2023, segundo o Sebrae, a realidade ainda impõe desafios para quem está começando. No caso de Augusta França, no entanto, “cada passo da criação da Mochilando foi muito bem planejado para atingir a proposta social do projeto e, também, seu retorno como empreendimento”. O protagonismo de Augusta também reflete um cenário mais amplo. De acordo com o Mapeamento do Ecossistema do Afroturismo, 85% das iniciativas no Brasil são lideradas por mulheres negras. Impacto educacional O Mochilando Afroculturas ganhou força e assumiu papel no resgate da história negra na região. “As contribuições da mão de obra escravizada foram essenciais para a construção do Porto, por exemplo, mas essa história não é contada. Muitas pessoas, durante os roteiros de afroturismo, ficam indignadas ao perceber que nunca tiveram acesso a essas informações. (...) Estamos cobrando que mais estátuas e murais estejam presentes na cidade para ganhar mais visibilidade e fortalecer o afroturismo.” Mais de 2 mil pessoas já participaram das caminhadas, e o projeto se expandiu com palestras. Atende escolas, universidades e unidades do Sesc, dentro e fora de Santos. O ativismo de Augusta se desdobra em iniciativas de transformação urbana e simbólica na Cidade, como redenominar uma travessa que homenageava um escravagista com o nome de um ex-escravizado, Anísio José da Costa. *Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - Unisantos sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes