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Sexta-feira

23 de Agosto de 2019

Com a intenção de deixar o PT, Janaina Ballaris justifica decisão: 'Impossível a convivência'

Vereadora de Praia Grande cita longo processo de desgaste, especialmente com a direção regional da legenda

Após mais de uma década, parece estar chegando ao fim a trajetória de Janaina Ballaris pelo Partido dos Trabalhadores. A vereadora de Praia Grande anunciou, recentemente, que não deve seguir na legenda da estrela vermelha até o fim do mandato.

"Eu não vou disputar a eleição em 2020 pelo PT. Isso eu tenho certeza. Como dois e dois são quatro. Mas, eu vou respeitar o período de troca partidária da legislação eleitoral, que será em março de 2020", disse a parlamentar.

Janaina cita o longo processo de desgaste dentro do partido como motivo para a decisão. Especialmente em se tratando da direção do PT na Baixada Santista. A gota d'água para a vereadora foi nas eleições de 2018. Na avaliação dela, a legenda optou por fortalecer candidaturas de partidos aliados, ao invés de buscar novas lideranças regionais.

"O PT poderia ter articulado para lançar candidaturas regionais para formar lideranças. Nenhum outro queria ser candidato. Eles queriam me jogar na cova dos leões. Para que? Eu fico com a rejeição do partido, e a aprovação vai para a candidata de outro partido. Que foi o que o PT fez. Eles fizeram uma aliança com o PC do B, e apoiou em duas candidaturas regionais... Se a estratégia do PT regional é essa, boa sorte a eles. Porque eu tenho muitos amigos na direção estadual, sou muito grata. Se fosse pela direção estadual, eu jamais sairia do partido. Tenho amigos e pessoas que vou considerar pelo resto da vida. Mas, para a questão regional, está impossível a convivência", disparou a petista.

Segundo a vereadora, já houveram diversos convites. Entre as legendas que demonstraram interesse, estão o PRB, o PR e PTB. Gilberto Kassab também já tentou levar Janaina Ballaris para o PSD. No entanto, antes de tomar qualquer decisão, a parlamentar quer analisar quais são os projetos de cada sigla para Praia Grande.

'Nunca foi uma vida fácil'

Segundo Janaina, a vida dentro do PT "nunca foi uma vida fácil". Em 2011, mesmo com oposição dentro do diretório, a petista foi eleita para presidir a legenda no município. Segundo ela, a partir daí, começou a ser perseguida por membros descontentes com a decisão.

"Foi tipo a Dilma no Congresso. Fui afastada da direção municipal, tentaram caçar meu mandato na estadual, até que foram suspensos. Depois disso, foram na Justiça tentar imputar denúncias mentirosas contra mim. Não deram em nada, mas dá muito trabalho. Continuei no mandato, mas nunca com harmonia partidária, mesmo com meu marido sendo presidente. Não adianta você ter o presidente, é preciso ter o diretório, a militância. É uma militância despolitizada em Praia Grande, e fica difícil construir qualquer projeto para a cidade. Se você não consegue ter militantes para um projeto partidário, imagina um projeto para o munícipio. Não tem condição nenhuma de articular, conseguir qualquer coisa na cidade em um partido como o PT, com essas pessoas que estão aí", analisa a vereadora.

O processo de desgaste da petista dentro da legenda ocorreu no fim de 2014. Janaina discordou de decisões do Governo Dilma Rousseff que impactaram diretamente em direitos dos trabalhadores.

Vereadora Janaina Ballaris (Foto: Irandy Ribas/AT)

"Ela [Dilma] veio aqui, disse que não mexeria em direitos dos trabalhadores, 'nem que a vaca tussa'. E eu passei a questionar: 'Parece que ganhou o Aécio [Neves, do PSDB, opositor nas eleições de 2014]. Cadê a CUT, cadê o sindicato? Vamos cobrar. Partido não é governo'", conta a política, que sofreu diversas críticas internas, incluindo um pedido de moção de repúdio pelo seu posicionamento.

Já em 2015, a vereadora foi acusada por correligionários de "negar o PT" ao inaugurar o gabinete itinerante. O trailer era roxo, e não vermelho, a cor do partido. Além disso, não trazia o logo do Partido dos Trabalhadores. 

"Militantes históricos e antigos me criticaram, falaram que eu quis esconder o partido. Eu dizia que era preciso ter visão do que estava acontecendo. O povo não estava querendo olhar para o PT como olhava antigamente. O PT tinha rejeição. Era preciso voltar a dialogar com a sociedade. Esses militantes históricos e antigos têm dificuldade de aceitar a cara nova que está chegando no partido. O partido tende a envelhecer e não dialogar com a sociedade", analisa Janaina.

No mesmo ano, a parlamentar lembra que foi agredida durante o 5º Congresso Nacional do partido, realizado em Salvador, na Bahia. Após jantar com delegados e militantes da legenda, ela conversava com outro vereador petista quando foram ofendidos por três homens, vestindo camisetas pró-impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Após tentar argumentar com o trio, um deles pegou a parlamentar pelo braço e a colocou no elevador. Segundo relata, o agressor teria apertado o seu pescoço, e ela foi socorrida após uma outra mulher pedir por ajuda.

"Fui a primeira militante que apanhou. À época, disse que estávamos chegando no limite. Estava implantada a política do ódio e da intolerância. Ninguém respeita ninguém. Está aí o resultado. Bolsonaro levou facada, Marielle morreu, o Jean Willys teve que mudar. Está tudo errado. Não é certo um candidato a presidente tomar facada. Não é certo uma vereadora ser assassinada. E não é certo uma vereadora apanhar como eu apanhei", comenta Janaina Ballaris.

'Me senti no Titanic'

Já em 2016, com o crescimento da rejeição ao PT, a vereadora não tinha expectativa de reeleição. "Não tinha como me eleger, porque precisava ter o quociente eleitoral, e nenhum partido queria coligar comigo por conta da rejeição ao PT. Mesmo assim, eu permaneci", conta a parlamentar.

Ela contou com o apoio de outras legendas, como o PR e o PSD, e se reelegeu tendo aumentado em 40% a sua votação, em comparação com a primeira eleição. Mesmo assim, ela diz que foi acusada de tentar trair o partido. Segundo Janaina, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, teria assinado a filiação dela à legenda sem que a mesma tivesse assinado qualquer documento. "Não aguentei, chorei muito, passei mal. Mas, era por amor ao partido. Disse que quem teria que sair do PT é quem errou, não eu. Ou se mudam, ou nós mudamos o PT", diz Janaina.

Ao fim, a vereadora conta que escreveu um texto no qual dizia se sentir no Titanic. "Não sabia se estava tocando violino, na fornalha lá embaixo ou com o bote. O bote pode ser desde uma mudança partidária ou até você defender uma classe, como o PT fez, de defender os taxistas, preterindo o Uber que a população toda queria. Isso dá votos também para a reeleição. Queria saber qual o projeto que o partido tinha", explica a petista.

No entanto, após isso, a parlamentar ressalta que foi tirada da direção estadual, já que o diretório da macroregião não a indicou. Na sequência, ela negou a indicação para ser delegada nacional, o que ela enxergou como um "cala boca". "Falei que não iria participar dessa forma também. Saí da macro, da nacional e da estadual", finaliza a vereadora.