Ser pai em tempos de redes sociais exige mais do que prover e estar presente fisicamente. É necessário enfrentar o desafio constante de dividir a atenção com telas e algoritmos, construindo um ambiente de confiança e diálogo para que os filhos se sintam seguros dentro e fora do mundo digital. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A psicóloga Ana Luiza Pereira Lopes alerta que o uso excessivo das redes sociais pode interferir na formação dos filhos. Quando uma criança percebe que precisa disputar espaço com o celular pela atenção dos pais, isso afeta a autoestima, a autoconfiança e, até, o vínculo afetivo. A mensagem que fica, mesmo que de forma sutil, é: “O que está na tela é mais interessante do que eu”. Ela chama atenção para os riscos reais do ambiente digital, como contato com estranhos, conteúdos inadequados, desafios virais de alto risco, cyberbullying e exposição precoce à sexualização. “Muitas vezes, o filho está ao lado, aparentemente entretido, mas navegando por conteúdos que os pais nem imaginam. Por isso, supervisionar é fundamental, mas isso não precisa nem deve ser feito de forma invasiva.” A especialista orienta que o caminho para acompanhar sem invadir são o diálogo constante e a construção de confiança: “A conversa precisa ser frequente, sem julgamentos ou sustos. Perguntar a que estão assistindo, com quem estão falando, mostrar interesse real. E, dependendo da idade, manter senhas compartilhadas e configurar os dispositivos juntos pode ser uma forma saudável de acompanhar sem espiar escondido.” Diálogo aberto O chef Danilo Rocha, pai de Yuri, de 15 anos, relata que a relação com o filho é pautada na sinceridade desde sempre. “Quando ele encontrou vídeos sobre o jogo da Baleia Azul, veio falar comigo imediatamente. Isso foi um sinal de que ele confiava em mim para me contar o que o assustava.” Danilo conta que a conversa ajudou não só a proteger o filho, mas também a estreitar o vínculo. “A gente joga muito às claras”. Quando Yuri pediu para criar um perfil no Instagram, o pai autorizou, mas com regras: “Montamos juntos, com a autorização da mãe dele. Até os 15, eu acompanhava de perto. Agora ele cuida sozinho, mas de vez em quando ainda peço para olhar.” Ele destaca a importância dos momentos offline: “Fazemos questão de momentos sem celular, principalmente na hora das refeições. Às vezes, eu deixo o meu no modo silencioso e só escuto o que ele quer dividir. Isso cria uma memória afetiva, uma presença real.” Troca constante O empresário Nicolas Eduardo Flores Onha, pai de Eduardo, de 17 anos, e Larissa, de 15, afirma que estar atualizado é um desafio constante. “Tem dias que o aplicativo é novo para mim, mas eles já sabem tudo. Eu peço para me mostrarem, explicam e, assim, a conversa flui.” Nicolas explica que a troca de informações reforça a confiança e o respeito mútuos. “Não é só dar ordens, é participar do universo deles. Comento as postagens, mando mensagens, puxo assunto. Isso faz com que eles saibam que não estou ausente, mesmo que cada um tenha seu espaço.” Eduardo, Nicolas e Larissa (Alexsander Ferraz/AT) Ele lembra um episódio em que sua filha recebeu mensagens de desconhecidos e foi ele quem percebeu o problema pelo monitoramento discreto. “Chamei ela para conversar, expliquei os riscos, e juntos configuramos o perfil para garantir mais privacidade. Ela entendeu e passou a cuidar melhor do que compartilha.” Nicolas reforça que o equilíbrio é uma batalha diária, com horários para tudo, e destaca que a família tem o hábito de não usar celular durante o almoço para focar na conversa. Escuta ativa O professor Gilberto Braguiroli Krauser, pai de Ana Clara, de 15 anos, compartilha a experiência de lidar com a exposição da filha nas redes sociais. “Entendo que as redes têm sempre um lado muito positivo e também um negativo. Em se tratando do negativo, chegamos às questões que envolvem a necessidade de aceitação e atingir metas que, necessariamente, não seriam as de crianças e adolescentes.” Gilberto relata que há um dilema entre orientar a filha sobre conteúdos que julga não serem apropriados ou que extrapolam seus conhecimento e vivência, mas que, geralmente, conseguem chegar a um acordo mútuo após boas discussões. Sobre o uso das redes, ele explica que Ana Clara, que é bailarina, sempre foi expressiva e adora estar “nos holofotes”. “Desde as apresentações na escola até vibrar de felicidade com convites para entrevistas, ela nasceu para estar em frente às câmeras”. A família permitiu a ela usar redes desde os 8 anos, com muita supervisão, especialmente da mãe, que acompanha de perto as publicações até hoje, garantindo segurança. Gilberto e Ana Clara (Sílvio Luiz/AT) Questionado sobre a pressão para ser pai perfeito, Gilberto diz que procura dar bons exemplos e orientar, mas aceita que as decisões finais sejam da filha. “Não me cobro muito sobre ser o pai perfeito, me atenho a tentar ser somente o pai no dia a dia dela”. Ele enfatiza que, apesar de não ser muito de postar, algumas diferenças de opinião entre ele e a filha geram discussões, mas também, respeito. Quanto a limites, considera que o principal é o tempo de uso. “A escola já colaborou muito proibindo o acesso durante o período escolar. Agora, cabe a nós fazer Ana Clara entender que moderação é o melhor caminho, pois uma palavra colocada ou uma ideia mal interpretada pode causar repercussões que não queremos.” Neste Dia dos Pais, a mensagem dos pais e da psicóloga é uníssona: mais do que controlar o que os filhos fazem online, é preciso estar ao lado deles — atentos, participativos e afetuosos. “O presente que fica não está na tela, mas no abraço, na conversa sem pressa e no olhar que diz ‘você é importante’”, diz Ana Luiza Pereira Lopes.